Ttulo: O Primeiro Beijo.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Nova Cultural, So Paulo, 1987.
Ttulo Original: Love Casts Out Fear.
Gnero: romance.
Digitalizao e correco: Dores cunha.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente  leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de direitos de autor,
este ficheiro no pode ser distribudo para outros fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente.

A mais famosa e perfeita autora de romances histricos, com 350 milhes de livros vendidos em todo o mundo
O primeiro beijo

Contracapa: De repente houve um pequeno estouro e lorde
Kiniston jogou Alceia no cho, atirando-se sobre ela
para proteg-la. A ao foi to rpida que Alecia
quase perdeu o flego. Sentia o peso dele sobre seu
corpo, quando se ouviu um terrvel estrondo seguido de exploses menores e um estilhaar de
vidros que pareciam abalar o mundo todo. Assustada ergueu os olhos e viu o rosto de lorde
Kiniston aproximar-se...
Emocionada, sentiu os lbios dele, doces e ternos,
beijarem os seus. E foi neste momento,
em que corriam perigo de vida, que ela
descobriu que o amava!

BARBAR A CARTLAND
O primeiro beijo
Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.
Ttulo original: Love Casts Out Fear
Copyright: (c) Barbara Cartland 1986
Traduo: Vera Ldice Reys
Copyright para a lngua portuguesa: 1987
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Av. Brigadeiro Faria Lima, 2. O00 - 3 andar CEP 01452 - So Paulo - SP - Brasil Caixa Postal 2372
Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda. e impressa na Artes Grficas Guar S. A.

NOTA DA AUTORA
No dia 28 de julho de 1816 o duque de Wellington deu um grande baile em seu palcio nos Champs Elyses, em homenagem  princesa real.
Estranhamente, a princesa foi embora cedo e, nas primeiras horas da madrugada, descobriu-se um incndio no poro.
Cartuchos de plvora foram jogados por entre as grades de uma janela e, ao explodirem, abalaram as janelas e espalharam fogo pelas tbuas do assoalho. Os lacaios
rapidamente extinguiram as chamas e o duque no fez alarde do incidente, embora vrias pessoas alegassem ter se tratado de um atentado.
O Exrcito de Ocupao, composto de cento e cinquenta mil soldados britnicos, sediado em Cambrai aps a derrota de Napoleo Bonaparte, na batalha de Waterloo, foi
desfeito em 1818.
A Gr-Bretanha teve um grande heri, o duque de Wellington. Sua conduta como soldado, administrador e financista deu-lhe uma posio de destaque na Europa que nenhum
outro ingls jamais ocupou.
A afeio do duque pelas Caton, as trs beldades americanas, e o modo como tentou casar duas delas com seus ajudantes-de-ordens so fatos reais.

CAPTULO I
1816
- No adianta, miss Alecia, no se pode fazer o impossvel, e eu no posso cozinhar sem ter dinheiro para comprar comida!
- Eu sei, Bessie - retrucou Alecia -, mas papai est muito preocupado no momento e eu no quero incomod-lo.
- Est bem, miss, mas no podemos continuar assim. E, se quer saber minha opinio, o que seu pai est precisando  de um bom bife ou de um frango bem gordo.
Alecia suspirou porque sabia que Bessie, que cuidava deles h quinze anos, estava falando a verdade.
Porm, o ltimo livro de seu pai vendera to pouco que haviam ficado quase sem dinheiro, e o que ele estava escrevendo no momento s ficaria pronto dali a uns trs
ou quatro meses.
Perguntava-se, aflita, o que deveria fazer e, como sempre acontecia nessas ocasies, desejou que o conde de Langhaven no tivesse morrido. Ele fora seu tio, irmo
de sua me, e por gostar muito da irm sempre fora extremamente bom para eles.
Quando lady Sophie insistiu em casar-se com Troilus Stambrook, seu irmo foi o nico membro da famlia que no ficou contra ela e, to logo herdou o ttulo do pai,
passou a dar ajuda financeira a ela e seu marido intelectual.
Lady Sophie apaixonou-se pelo belo e elegante Troilus assim que ele chegou para ser tutor de seu irmo, antes de ser mandado para Oxford.
Troilus Stambrook, por sua vez, foi arrebatado pela beleza da filha de seu empregador, que j encantara toda a sociedade de Londres com seu charme e elegncia.
Embora lady Sophie tivesse vrios pretendentes, e entre eles um que seu pai considerava o genro ideal, assim que conheceu Troilus sentiu que todos os outros homens
do mundo tinham deixado de existir.
Seguiu-se uma rdua e violenta batalha at que lady Sophie conseguiu o que queria. Estava muito apaixonada e decidida a lutar contra o mundo todo se fosse preciso.
E, assim, lady Sophie, a preciosidade de St. James, casou-se com um obscuro e desconhecido escritor cuja nica qualificao era ser um cavalheiro por nascimento
e to inteligente que merecera uma bolsa de estudos em Eton e outra em Oxford.
- Voc vai se arrepender para o resto da vida por ter feito uma bobagem dessas! - dissera o velho conde a sua filha, a caminho da igreja.
Porm ele estava enganado, pois lady Sophie foi imensamente feliz at morrer.
O nico problema era que ela e o marido tinham pouco dinheiro e, depois que nasceu a filha, Alecia, as coisas ficaram ainda mais difceis. Mas era orgulhosa demais
para ficar pedindo ajuda ao pai.
Depois que seu irmo, o terceiro conde, recebeu a herana, tudo ficou diferente.
Por gostar muito da irm, deu a ela e ao marido uma pequena casa na propriedade rural onde viviam sem pagar aluguel, depois providenciou para que recebessem mantimentos
de suas fazendas e hortas.
Havia pssegos, uvas e verduras em abundncia, e toda semana recebiam da Casa Grande manteiga, queijo e ovos. Alm disso, havia galinhas, patos, pombos, e na primavera
pernas de carneiro.
Isso tudo tornava a vida bem mais fcil, e Troilus podia se dedicar a escrever sem se sentir humilhado por saber que estava privando a esposa das coisas que adorava
e a que estava acostumada desde que nascera.
Ento, logo aps a morte de lady Sophie no terrvel inverno de 1814, o conde de Langhaven, seu irmo, sofreu um acidente quando cavalgava. Ficou invlido e depois
de dois meses de muito sofrimento e dor acabou morrendo tambm.
Foi ento que o novo conde assumiu Lang Hill e as propriedades, e tudo mudou novamente para Alecia e o pai.
O falecido conde no tivera um filho homem que continuasse sua generosidade. Tal como sua irm Sophie, tivera apenas uma filha, Al cujo nome era Charis.
As duas meninas tinham s trs semanas de diferena, sendo Alecia a mais velha. Cresceram juntas, brincando e sendo orientadas pela mesma governanta e preceptora.
No era de estranhar que Alecia fosse a mais inteligente, pois o pai sempre conversava muito com ela e lhe ensinava coisas que estavam muito alm do alcance de qualquer
preceptora.
As primas eram companheiras e se gostavam muito.
A vida de Alecia era uma alegria desde a hora em que acordava de manh at a hora de deitar-se  noite.
Adorava as aulas que o pai dava a ela e  prima, gostava de ir  escola da Casa Grande, mas, acima de tudo, gostava de cavalgar com Charis, montando os cavalos bem
cuidados e treinados que pertenciam a seu tio.
Quando o conde morreu, Alecia mal podia crer que tudo de bom que conhecera e amara chegara ao fim.
J fora uma agonia perder a me e agora perdia o tio querido e Charis, que naturalmente teve de sair da casa em que morava.
Sentia-se como se de repente tivesse sido arrancada do aconchego e calor de uma casa com lareira para ser jogada l fora, na frieza assustadora de um mundo que no
conhecia.
Quando o novo conde assumiu, todos os luxos e comodidades a que Alecia estava acostumada cessaram abruptamente.
O quarto conde era um primo muito distante, um jovem solteiro, ftil, que gostava de se divertir em Londres e no tinha a menor inteno de enterrar-se no campo.
O que ele queria era ir de vez em quando para sua propriedade rural, desfrutar da novidade, levando enormes grupos de mulheres e homens como ele, que s queriam
cavalgar durante o dia e jogar durante a noite apostando fortunas nas cartas.
Para Alecia, as histrias que ouvia sobre o que estava acontecendo em Lang Hill pareciam incrveis.
Era difcil acreditar que tudo aquilo estivesse acontecendo num lugar que ela sempre considerara seu segundo lar.
- Se sua me soubesse o que est acontecendo por aqui, ela se reviraria no tmulo, isso sim! - disse Bessie.
- E o que est acontecendo, afinal?
- Isso no  para seus ouvidos, miss Alecia! Mas h mulheres com a cara pintada, cobertas de peles e jias, homens bebendo o tempo todo e apostando moedas de ouro
no jogo, o que  vergonhoso, na minha opinio, diante de tanto sofrimento causado pela guerra.
Alecia concordava com ela, pois estava revoltada com o tratamento dado aos homens que haviam sido desmobilizados das Foras Armadas agora que a guerra com Napoleo
terminara.
A maioria deles no conseguia arranjar trabalho e no tinha como se sustentar sem uma penso ou qualquer recompensa pelos anos em que lutaram to bravamente.
Uma coisa ficara evidente para Alecia: o quarto conde de Langhaven no estava nem um pouco interessado nos primos que viviam na casa de campo nem em qualquer outra
pessoa de sua propriedade rural.
Ele no visitou nenhum dos fazendeiros, o que os deixou ofendidos, e s falou com os guarda-caas a respeito da perspectiva de caar no outono.
Durante suas visitas s era visto de longe, cavalgando, e logo em seguida partia de volta para Londres com seu barulhento grupo, nas carruagens e coches, sem ter
trocado uma nica palavra com os que viviam  sombra de Lang Hill.
- Como ele pode se portar assim to mal, papai? perguntara Alecia, indignada, quando depois da terceira visita o novo conde ainda no fizera nenhum esforo para
conversar com alguns dos moradores do condado.
- Acho que so costumes modernos, filhinha - retrucou Troilus. - Ou, ento, por ser persona grata ao prncipe regente. seu primo talvez ache perda de tempo falar
com gente como ns!
Alecia resolveu consigo que deveria ir falar com o conde, pois talvez assim o persuadisse a continuar dando o mesmo tipo de ajuda que lhes dava o tio Lionel.
Pensou em ir at a Casa Grande e pedir para ver o conde.
Mas no era s sua timidez que a impedia disso: seu orgulho no a deixaria humilhar-se, mendigando favores.
Por outro lado, no podia deixar de reconhecer que as coisas estavam cada vez piores e o dinheiro cada vez mais curto.
A penso de sua me, que no era muito, terminara com a morte dela, e foi s ento que Alecia percebeu quo pouco o pai ganhava como escritor.
Os livros dele eram bons, inteligentes, mas eram para eruditos e no para o pblico em geral. Eram muito apreciados por estudantes de faculdade, professores e bibliotecrios
universitrios, por isso rendiam to pouco comercialmente que os editores relutavam em public-los.
Ao sair da cozinha, Alecia decidiu ento que deveria mesmo fazer alguma coisa.
Bessie ficou resmungando que o almoo consistiria de algumas verduras e pouca coisa mais, j que era pouco provvel que as galinhas do quintal botassem mais ovos
naquele dia.
- Eu vou ter de fazer alguma coisa! - repetiu Alecia para si.
S no conseguia imaginar o que faria, e na casa j no havia mais nada que pudesse ser vendido. Tinha chorado amargamente quando o pai se desfez
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de umas poucas jias que pertencera  me. Depois foram as estatuetas de porcelana, a maioria de Dresden, que a me colecionara durante anos, desde solteira. Tudo
vendido por umas poucas libras.
Agora s restava a moblia gasta, com o estofamento precisando de cobertura nova, e um retrato a leo de sua me pendurado na parede do escritrio do pai.
Fora pintado quando ela chegou a Londres e se tornou um sucesso social da noite para o dia.
Vender isso seria doloroso demais para ela e o pai. Sabia que ele buscava inspirao naquele retrato e se sentia melhor s olhando para a imagem da mulher.
Ele s conseguira sobreviver  agonia da perda de sua querida esposa afundando-se no trabalho.
- O que posso fazer? O que posso fazer? perguntava-se Alecia seguidamente.
Por fim decidiu engolir seu orgulho, e j estava para sair em direo  Casa Grande, quando surpreendeu-se ao ouvir o rudo de uma carruagem parando diante de sua
porta.
Ficou imaginando quem poderia ser. Quase no recebiam visitas, principalmente quela hora da manh.
Ouviu baterem e, sem pensar em esperar por Bessie, correu para abrir a porta.
Ao ver a elegante carruagem de viagem e a pessoa que estava descendo dela, ficou petrificada, at que lhe escapou da garganta um grito de alegria que ficou ecoando
na ensolarada manh de primavera.
- Charis! Nem posso acreditar que seja voc! Lady Charis Langley correu para a prima e abraou-a.
- Alecia, minha querida! Estou to contente por v-la!
As primas se beijaram, depois, de braos dados, entraram na casa e foram at a sala.
- Quando eu poderia imaginar que voc iria aparecer, assim, de repente? Ah, Charis, como senti sua falta e voc no me escreve h quase dois meses!
- Eu sei, prima, e peo que me perdoe. Mas agora
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eu tenho tanta coisa para lhe contar que nem sei por onde comear!
A me de lady Charis morrera tragicamente quando ela ainda era bem pequena e, depois da morte do pai, ela fora para Londres morar com uma tia, a duquesa de Hampden,
que a apresentara no Palcio de Buckingham to logo terminou seu luto.
Antes disso, entretanto, aconteceram vrios jantares e pequenas reunies a que Charis no estava acostumada, mas que evidentemente a encantaram.
No incio, logo depois de ter ido embora, ela escrevia para Alecia quase todos os dias, dizendo o quanto sentia sua falta e contando tudo o que acontecia em Londres.
Quando as cartas se tornaram menos frequentes, Alecia entendeu que Charis estava ocupada com as novas amizades, embora soubesse que o afeto entre elas no diminura.
Ento, a partir do comeo do ano, as cartas comearam a ficar mais raras ainda, e quando Charis escrevia era evidente que no tinha tempo de contar para a prima
tudo o que lhe estava acontecendo.
Alecia olhava-a admirada com as transformaes em sua aparncia desde a ltima vez em que a vira.
Naquela ocasio ela estava triste e infeliz com a morte do pai e assustada por se afastar do lar onde passara toda sua vida.
Tinha partido num mar de lgrimas e, com seu traje negro, parecia muito diferente da menina risonha e encantadora com quem Alecia convivera durante dezoito anos.
Agora, olhando para a prima, percebia que estava vestida na ltima moda e ostentava uma nova beleza de fazer inveja.
Charis tirou o chapu enfeitado com pequenas penas de avestruz e jogou-o sobre uma cadeira.
Depois puxou Alecia para sentar-se a seu lado no sof, dizendo:
- Voc no mudou nada! Sentiu saudades de mim?
- Terrivelmente! Depois que partiu nada mais foi como antes e, desde que o novo conde assumiu o lugar de seu pai, tudo ficou horrvel e muito estranho.
- Isso no me surpreende, eu jamais gostei do primo Gerald. Toda vez que o vejo em Londres, ele est com alguma dessas atrizes ou libertinas e por isso nunca posso
falar com ele.
Alecia arregalou os olhos.
- Voc acha que essas so as mulheres que ele traz para c?
- No seria de admirar, mas ele passa tambm muito tempo com o prncipe regente.
Alecia lembrou-se de que a fama do prncipe regente chocava a maioria dos habitantes mais velhos do condado, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Charis
falou:
- Mas eu no vim aqui para falar do primo Gerald. Vim falar de mim e ah... Alecia, voc precisa me ajudar.
- Claro, priminha, farei o que voc quiser, embora eu no consiga imaginar de que maneira posso ajud-la.
Enquanto falava, admirava no s o belo e elegante vestido de Charis, que parecia extremamente caro, como tambm seu colar de prolas perfeitas.
A prima usava ainda um bracelete de ouro com pequenos brilhantes e um valioso anel de brilhante no dedo mdio da mo direita, o que parecia um tanto ostensivo para
uma jovem.
Ento, por conhecer bem a prima, Alecia percebeu que Charis estava com um certo ar de preocupao.
Sentindo que havia algo de errado, perguntou logo:
- O que h, Charis? Diga-me como posso ajud-la. Charis baixou o olhar, contemplando o anel de brilhante, antes de responder:
- Fiquei noiva e vou me casar. Alecia deu um gritinho, toda alvoroada.
- Ah, Charis! Por que no me contou? Que maravilhoso! Tenho certeza de que voc vai ser muito feliz!
- Vou, sim, muito, muito feliz! Eu tenho tanta sorte, Alecia, e Harry diz ser o homem mais feliz do mundo. Mas, justamente agora, h dificuldades...
- Em primeiro lugar, quem  Harry?
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- Ele  o visconde Turnbury, filho do conde de Scarcliffe - respondeu Charis, com orgulho.
Alecia no disse nada, apenas ficou ouvindo enquanto a prima prosseguia:
- Ele  to bonito, to alegre e divertido, e para mim  o homem mais maravilhoso do mundo! - Sorriu antes de dizer: - Eu o amo, Alecia, da mesma maneira que tia
Sophie amou seu pai, e se ele fosse pobre e no tivesse ttulos de nobreza eu estaria disposta a fugir com ele.
- Fico feliz por voc ter encontrado um amor assim, mas, afinal, qual  a dificuldade ento?
- Foi exatamente isso que vim-contar a voc. Charis respirou fundo, como se tomasse coragem para comear.
- Ns nos apaixonamos logo que nos conhecemos, e quando Harry me pediu em casamento fiquei to feliz que tive vontade de contar a todos minha felicidade. Tudo estava
perfeito, mas ento subitamente a me dele morreu.
- Lamento muito - murmurou Alecia.
- Sabamos que no poderamos anunciar nosso noivado logo aps a morte dela. Ento, enquanto Harry pensava num modo de podermos evitar a espera de um ano para nos
casarmos, aconteceu uma coisa terrvel.
- O que foi? - perguntou Alecia, alarmada.
- Eu recebi uma carta do meu tutor.
- De seu tutor? Eu no sabia que voc tinha um!
- Nem eu. Parece que eu me lembro vagamente de papai ter dito alguma coisa sobre isso, mas acabei esquecendo.
- Explique-se melhor.
- Quando papai foi para Portugal com as tropas de Wellington, logo no comeo da guerra, eu tinha doze anos. Um dia antes de eles entrarem em batalha, um oficial
que os comandava sugeriu que todos fizessem testamentos deixando tudo o que tivessem para as pessoas que realmente queriam.
- Era uma coisa sensata...
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- Papai, no sei por que razo, fez de um amigo dele meu tutor, lord Kiniston, que agora  general.
- Acho que ele o considerava uma pessoa responsvel. Voc o conheceu?
- Claro que no! Como lhe disse, s fiquei sabendo da existncia dele h dois dias quando recebi uma carta da Frana.
- Da Frana?
- Ele est em Cambrai com o Exrcito de Ocupao e eu deduzi pela carta que, assim como eu no sabia ou tinha me esquecido dele, ele havia se esquecido de mim.
- Ento por que haveria de incomod-la agora?
- No tenho a menor ideia, mas ele me ordenou que fosse encontr-lo na Frana, agora. Imediatamente!
Alecia fitou-a espantada.
- Verdade? Como  que ele pode sugerir uma coisa dessas?
- Ele no sugeriu, ordenou, e espera que eu obedea, o que certamente no tenho a menor inteno de fazer.
- Voc pode escrever dizendo que no  conveniente viajar agora...
- Harry acha que isso seria um erro e acha tambm que lord Kiniston tem algum outro motivo para me pedir que v a Cambrai, onde a guarnio inglesa est aquartelada.
Ele teme, tambm, que se eu for lord Kiniston no me deixe voltar.
- E por que haveria de prender voc l? Afinal de contas, se  mesmo um bom tutor, ficar contente de saber que voc vai se casar com algum importante como o visconde
Turnbury!
-  que ele me pareceu ser desses que seguem  risca a etiqueta e todas essas coisas, e por isso no vai nos deixar casar logo. E  exatamente isso que estamos decididos
a fazer.
Alecia ficou olhando a prima, que disse:
- Harry j planejou tudo e s voc vai ficar sabendo, mais ningum. Ns vamos nos casar agora.
Alecia arregalou os olhos.
- E como vo fazer isso?
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-  muito simples - Charis sorriu. - vou dizer a tia Emily que vou fazer um passeio e ficar hospedada com amigas. E ningum  melhor do que voc. Na verdade, porm,
Harry e eu vamos nos casar muito secretamente em alguma igrejinha do interior, com licena especial... - O tom de voz mostrava o quanto estava eufrica  medida
que prosseguia. - Depois iremos para uma casa que Harry possui em Suffolk, onde ningum nos encontrar.
Alecia respirou fundo.
- Eu acho que voc no deve fazer isso...
- Pois estou decidida a fazer! Amo Harry e ele me ama, mais do que tudo nesse mundo. Se eu for embora e deix-lo sozinho aqui, haver outras mulheres que tentaro
conquist-lo e poderei perd-lo.
- Se ele a ama de verdade, no vai olhar para mais ningum.
Charis deu uma risadinha marota.
- Alecia, minha priminha, homem  homem, e existe uma certa mulher que eu odeio e que est tentando roub-lo de mim h meses. Reconheo que  muito bonita e sofisticada,
e tenho medo de que ele no consiga resistir e acabe me esquecendo.
- Isso seria impossvel! Ningum pode ser mais bonita do que voc, Charis!
- Nem voc? Afinal de contas sempre fomos muito parecidas. Lembra-se de que quando ramos crianas as pessoas costumavam perguntar se ramos gmeas?
Alecia riu.
- Isso foi h muito tempo. Agora estou longe de parecer sua irm gmea.
- Pareceria se estivesse vestida como eu e fizesse um penteado moderno.
- De que adiantaria? Aqui no h ningum para me ver a no ser papai, que vive afundado em seu trabalho e pensando na mame. E Bessie, que s pensa na comida que
no tem para fazer. - Ento lembrou-se, com uma exclamao desalentada. - Ah, Charis, voc vai ficar para almoar? Se for, no tenho nada para lhe oferecer.
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- Nada para me oferecer? O que quer dizer com isso? Alecia ficou constrangida.
- Infelizmente  a verdade. Sabe, agora que seu pai no est mais aqui, no temos mais coisas gostosas para comer. O ltimo livro de papai rendeu to pouco!
Charis olhou para ela e disse:
- Estou envergonhada de mim! Como pude ser to egosta a ponto de no perceber que a morte de papai traria consequncias para voc? Sinto muito, Alecia, de verdade!
Perdoe-me.
- Voc no tem culpa, prima.  que as coisas esto difceis e eu no sei bem o que fazer.
- Pois eu vou lhe dizer o que deve fazer, antes de mais nada. Diga aos criados que me trouxeram at aqui para irem comprar alguma coisa para o nosso almoo.
Abriu a pequena bolsinha que trazia junto ao pulso e retirou trs moedas de ouro que colocou na mo de Alecia.
- Eu... eu no posso aceitar isso... - disse Alecia com voz dbil.
- No seja ridcula! Sempre dividimos tudo e o que vou lhe pedir para fazer por mim vale muito mais do que isso. Agora v dizer a Bessie para dar ao lacaio uma lista
das coisas que quer e para andar depressa. Seno, vamos ficar com muita fome!
Alecia deu uma risada nervosa que mais parecia choro e, sem dizer mais nada, saiu correndo da sala.
Encontrou Bessie na cozinha e, como j esperava, o cocheiro e o lacaio que haviam trazido Charis estavam sentados  mesa tomando ch.
Os dois se ergueram assim que ela entrou e os cumprimentou. Alecia levou Bessie para o corredor e fechou a porta.
- Agora oua, Bessie. Lady Charis disse que quer pagar o almoo, por isso voc deve mandar o cocheiro e o lacaio irem comprar tudo o que voc precisa. Aqui est
um guinu, o resto que ela me deu vou guardar para comprar comida o resto da semana.
Bessie ficou de olhos arregalados fitando a moeda de
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ouro como se nunca tivesse visto uma, depois ergueu as mos maltratadas pelo trabalho.
- Deus seja louvado! Eu estava rezando por um milagre!
- Ento suas preces foram atendidas. Agora v depressa dizer o que voc quer.
Alecia voltou para a sala e foi dizendo:
- Eu lhe sou muito grata, Charis, mas tenho a impresso de estar abusando de sua bondade.
- Voc no est abusando coisa nenhuma e no sei como pde ter sido to tola de no me contar a situao em que esto!
Alecia no respondeu e Charis prosseguiu:
- Est certo, fui muito egosta por pensar s em mim ou em Harry, mas  por isso que estou aqui agora e voc precisa me ajudar.
- Voc ainda no me disse o que quer que eu faa, Charis.
-  muito simples, tudo o que tem a fazer  ir para a Frana em meu lugar, para que eu possa me casar com Harry sem que meu tutor ou qualquer outra pessoa nos impea.
Alecia ficou atnita, olhando para Charis como se ela houvesse enlouquecido.
- O que voc est dizendo? Charis respirou fundo.
- Harry e eu achamos, pela carta de meu tutor, que se eu no fizer o que quer ele ficar furioso. Mandou-me instrues minuciosas e devo viajar na prxima quinta-feira,
isto , daqui a trs dias, acompanhada pela esposa de um major de seu regimento que vai ao encontro do marido. Estaremos protegidas por um mensageiro especial. Do
modo como ele organizou, tudo parece mais uma operao militar!
- E... voc est querendo que eu v... fingindo ser voc?
- No vai ser to difcil assim. Se eu me recusar a fazer o que lord Kiniston pediu, tenho certeza de que far uma tremenda confuso e impossibilitar que Harry
e eu fujamos como pretendemos. Depois que tivermos
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casado e desaparecido, ele no poder fazer mais nada.
- Mas por que no escreve a ele e diz que pretende se casar?
- No seja boba, Alecia. Ele  um general, do tipo que est acostumado a ver suas ordens serem obedecidas literalmente e gosta de tudo segundo os padres convencionais.
Charis falava com sarcasmo e mordacidade  medida que prosseguia.
- Acha que vai concordar que eu me case se a me de Harry morreu h apenas algumas semanas?  claro que vai querer que esperemos meses e meses, ou at um ano, e
Harry e eu no poderemos tolerar isso, nem uma separao, no caso de eu ir para a Frana.
- Entendo o que est sentindo. Mas acha que seu tutor acreditar que sou voc?
Charis riu.
- E por que no? Somos muito parecidas e, na verdade, ele nunca me viu, nem a esposa do major com quem devo viajar nem qualquer outra pessoa em Cambrai.
- Tem razo - disse Alecia com suavidade.
- S o que voc tem a fazer  vestir-se como eu e falar como eu, o que no ser difcil para quem me conhece to bem. Alm disso, temos os mesmos parentes e voc
no correr o risco de cometer enganos!
- Eu... eu acho que no conseguiria... - balbuciou Alecia.
Charis estendeu as mos e segurou as da prima.
- Voc precisa me ajudar! No h mais ningum. Se eu perder Harry por deix-lo vou querer morrer!
Alecia ficou calada, ento Charis disse:
- Antes de eu vir para c Harry sugeriu que eu lhe oferecesse um presente por fazer isso por ns. Na ocasio eu achei que voc poderia ficar ofendida, mas agora,
vendo a situao em que ficaram com a morte de meu pai, vou oferecer-lhe quinhentas libras para voc ir em meu lugar para a Frana e ficar l at que Harry e eu
possamos contar que nos casamos.
- Quinhentas libras?
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J ia dizer que no podia aceitar, que era um insulto, quando pensou no pai e achou que no tinha o direito de priv-lo do sossego para trabalhar.
Pela sua expresso Charis entendeu que vencera e disse:
- Agora, priminha, temos pouco tempo para organizar tudo.
- O que temos de organizar? - admirou-se Alecia.
- Temos de pegar as roupas que comprei para voc em Londres e combinar exatamente como vai receber as outras malas nos trs dias antes de ir encontrar-se com a sra.
Belton para atravessar o canal.
Alecia ainda tentou protestar.
- No vou conseguir fazer isso, Charis! vou acabar decepcionando voc, eu sei que vou! E lord Kiniston ficar furioso quando descobrir que est sendo
enganado.
- Ento  bom que no descubra logo! Depois ser tarde demais para que possa fazer alguma coisa no sentido de impedir e ele no h de querer criar escndalo, expondo
Harry por no ter respeitado Luto e levantando suspeitas sobre mim de ter sido obrigada a casar s pressas.
Pela expresso no rosto da prima, percebeu que Alecia no entendera a implicao do que dissera e continuou, depressa:
- Basta mant-lo calmo e distrado at eu informar voc sobre o que Harry e eu estamos fazendo. Ns estaremos to felizes e tenho certeza de que voc se sentir
recompensada por ter nos ajudado.
Alecia sentiu a cabea rodar, como se repentinamente tivesse sido arrastada por um redemoinho.
Charis levou-a para o quarto, e s depois de ter feito um penteado igual ao seu na prima  que Alecia lembrou-se de perguntar:
- O que vou dizer a papai?
- Diga que eu vou lev-la para Londres comigo, o que alis eu j deveria ter feito h muito tempo e portanto no ir surpreend-lo. Para que no fique preocupada
com ele durante sua ausncia, sugiro que pea  sra.
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Milden que tome conta dele, se  que ela ainda mora na cidade.
- Mora, sim, mas como  que vou pedir a ela que tome conta de papai?
-  fcil! Se bem me lembro, ela vivia dizendo que o achava maravilhoso e que gostava de ler os livros dele. Voc foi boba de no ter recorrido a ela, antes. Afinal,
ela est bem de vida.
- Nunca pensei nisso. Acho que sempre pensei nela mais como amiga de mame do que de papai.
- Se quer saber minha opinio - disse Charis, com ar de experiente -, sempre achei que a sra. Milden estava muito mais interessada em ser amiga de seu pai do que
de sua me, s que era discreta.
Lembrando-se da sra. Milden, que era uma atraente viva de seus quarenta anos, Alecia percebeu que ela sempre os convidava para almoar ou jantar e ficava desapontada
quando seu pai recusava o convite.
- Estou muito ocupado com meu livro para ser socivel - dizia ele, quando Alecia sugeria que aceitasse. Agora achava que devia ter convidado a sra. Milden e outras
pessoas da vizinhana para visit-lo e distra-lo um pouco.
Mas, como tinham to pouco a oferecer para visitas e como seu pai ficara to perturbado depois da morte de sua me, achara melhor isolarem-se, deixar o tempo passar.
- vou fazer o que voc sugeriu, Charis. vou falar com a sra. Milden e pedir que me faa o grande favor de cuidar de papai enquanto eu estiver fora.
- Tenho certeza de que ela vai adorar! E, por falar nisso, eu sempre gostei dela.
- Eu tambm gosto e fui uma boba de no ter percebido que aceitando o convite dela pelo menos teramos uma boa refeio.
- Isso voc vai ter sempre no futuro. Eu cuidarei disso! Afinal, depois que papai morreu eu recebi uma grande quantia, embora no possa tocar no capital antes dos
vinte e um anos.
- Harry  rico?
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- Ele ser rico quando o pai morrer, mas ns dois juntos temos o bastante para fazermos tudo o que quisermos. Por falar nisso, o que mais queremos  criar cavalos
de corrida!
- Cavalos de corrida? - repetiu Alecia, surpresa.
- Essa  outra razo de querermos casar logo. Eu no lhe contei ainda que meu horrvel tutor lembrou-se de minha existncia simplesmente porque eu pedi a meu procurador
para retirar vinte mil libras, com que pretendamos comprar cavalos?
Suspirou, exasperada, e continuou:
- Agora vejo que foi uma grande bobagem minha, mas Harry estava planejando a criao e dizia que amos administr-la juntos. Ele estava comprando cavalos e, ento,
eu quis fazer o mesmo.
- Ento, foi assim que lord Kiniston lembrou-se de voc?
- , e se eu tivesse tido a sensatez de perceber que isso poderia acontecer, tudo seria diferente. Mas Harry diz que de qualquer modo ele iria fugir comigo, porque
no aguentaria esperar os meses de luto para poder anunciar o noivado e depois esperar mais ainda para casar. Num impulso Charis abraou Alecia e beijou-lhe o rosto.
- Tudo dar certo! E muito, muito obrigada, querida prima, por ser to boazinha!
- Eu... eu estou apavorada! - disse Alecia, quase num sopro.
- Bobagem! Vai ser uma divertida aventura e j est mais do que na hora de voc ter uma!
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CAPTULO 2
Pouco antes de chegar ao "Green Dragon", na Dover Road, Alecia comeou a pensar que devia ter enlouquecido.
Como pde deixar que Charis a convencesse a fazer algo to absurdo quanto passar por ela, no s para tutor como tambm para vrias outras pessoas que evidentemente
encontraria em Cambrai?
Teve um impulso de mandar a bela carruagem, que Charis lhe fornecera, fazer meia-volta e lev-la de novo para casa.
Porm, por gostar muito da prima, sabia que no poderia ser egosta ou cruel a ponto de fazer algo que a impedisse de casar com o homem que amava.
Em Londres Charis falara sem parar, dizendo quo maravilhoso era Harry Turnbury, e quando Alecia o conheceu entendeu por que a prima estava to apaixonada.
Era no s um jovem bonito e encantador, mas tambm inteligente, simptico e digno de confiana, o que faria dele um bom marido.
O modo como lhe agradeceu por ajud-los e o modo como olhava para Charis disseram a Alecia o que ela queria saber. Depois disso parou de protestar ou recusar-se
a atender a prima.
Para sua surpresa, embora soubesse da ajuda de Harry, Charis planejara tudo com eficincia e sensatez, coisa que certamente seria incapaz de fazer h um ano. Alecia
no deixou de notar isso.
Lord Kiniston em sua carta, conforme Charis j lhe dissera, indicara a sra. Belton, esposa de um major de seu regimento, para acompanh-la na viagem at Cambrai.
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Foi Charis quem se lembrou da dificuldade de um encontro em Londres, onde os criados perceberiam que Alecia no era ela.
- J est tudo combinado, priminha - disse Charis. - Mandei um bilhete para a sra. Belton desculpando-me por no ir v-la pessoalmente, pois estou muito ocupada
preparando a bagagem para a visita a meu tutor, e explicando que, como vou ficar no campo para despedir-me de parentes, eu a encontraria no "Green Dragon", que 
uma estalagem no caminho de Dover.
Como o "Green Dragon" era bem perto da casa de Alecia, isso facilitava as coisas e principalmente a viagem com os magnficos cavalos que Charis mandara para transport-la.
Assim que as primas chegaram a Londres, Charis comeou a providenciar um novo guarda-roupa para Alecia, o que a deixou sem fala.
No s lhe comprou vrios vestidos que poderiam ficar prontos dentro do pouco tempo de que dispunham, como tambm lhe deu dezenas de coisas que eram suas e serviam
para a prima.
- vou comprar tudo novo para o meu enxoval - disse ela a Alecia. - Por que no?
Passou o brao pelos ombros da prima enquanto falava.
- Se voc disser no para qualquer das coisas que estou lhe dando, vou ficar muito magoada. Assim estou apaziguando minha conscincia por no ter lembrado, enquanto
me divertia, da situao em que voc ficou, sozinha l no campo.
- Eu estava satisfeita de saber do seu sucesso e de como as pessoas achavam voc bonita.
- Voc est to bonita quanto eu - retrucou Charis -, e espero que as tropas de Ocupao percebam isso!
Alecia riu.
- So cento e cinquenta mil homens! - exclamou.
- Isso j  pedir demais!
- Pois voc pode ficar com todos eles e ainda o duque de Wellington, desde que me deixe Harry.
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O tom de voz ao dizer isso e o brilho em seu olhar indicavam a Alecia o quanto a prima amava o visconde.
 noite, quando ficou sozinha, rezou com fervor para que Charis fosse realmente feliz e nunca sofresse desiluses.
Sabia, pelos mexericos que ouvia nas aldeias, que os dndis de Londres cortejavam uma mulher bonita e logo que a conquistavam entediavam-se com ela.
Ouvira muitas histrias sobre a insensibilidade e crueldade deles, e temia que Charis, por ser bonita e rica, atrasse algum que se casasse s por seu dinheiro
e posio social.
Mas, depois de conhecer Harry, percebeu que ele a amava com sinceridade, tal como Charis, e prometeu para si que faria de tudo para ajud-los. Por mais difcil que
fosse o que lhe pediam, no podia falhar.
Por outro lado, tinha conscincia de no ser sofisticada e de ignorar as movimentaes do mundo social, no qual Charis brilhava to intensamente.
Quando os cavalos entraram no ptio do "Green Dragon", Alecia estava com as mos geladas e calafrios no estmago.
Seu nico consolo era que seu pai seria bem cuidado durante sua ausncia.
Ao falar com a sra. Milden percebera como fora tola de no incentiv-la a continuar frequentando a casa, como sempre fizera antes da morte de sua me, para que proporcionasse
a seu pai um tipo de companhia que ela como filha no podia oferecer.
A sra. Milden era uma mulher bonita e discreta, alm de muito inteligente e culta, pois lia bastante e no tinha vida social intensa, devido a sua timidez.
Recebeu Alecia muito bem, ouviu-a com ateno e mostrou-se compreensiva, oferecendo-se para fazer o que fosse preciso.
- Papai tem sido to infeliz, depois da morte de mame... Sei que ele detesta fazer as refeies sozinho, e precisa sempre de algum para anim-lo.
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- O que voc est sugerindo que eu faa? - perguntou a sra. Milden, um tanto nervosa.
- Estava pensando que, se a senhora fosse almoar com ele todos os dias e o convidasse para jantar em sua casa, isso tornaria as coisas mais fceis para Bessie,
que acha to difcil preparar duas refeies por dia. Alem disso, a caminhada at sua casa seria um bom exerccio para ele.
- Eu entendo, minha filha,  claro. vou tentar persuadi-lo, mas no fique zangada comigo se ele recusar.
- No acho que papai v recusar seu convite. O que ele mais detesta  ficar sozinho na casa, com a lembrana de mame em todos os aposentos, sabendo que ela no
ir responder ao seu chamado.
A sra. Milden colocou a mo sobre a de Alecia, com compreenso, dizendo:
- Eu tentarei! Tentarei, cara Alecia, fazer tudo o que puder para ajudar seu pai e,  claro, voc.
Antes de ir embora Alecia fora at o banco de Little Langley e depositara o dinheiro que a prima lhe dera. Ficaria mais tranquila sabendo que o pai teria com que
comprar comida.
- Que surpresa agradvel, miss Stambrook! - disse o gerente ao v-la.
- Eu queria lhe pedir um favor, sr. Graham.
- Pois no.
- Este dinheiro foi dado a papai por um leitor que o admira muito e ficaria constrangido em identificar-se.
- O sr. Graham ergueu as sobrancelhas e Alecia explicou: -  algum que acha os livros dele maravilhosos e que sabe da situao difcil em que estamos, mas no quer
ferir o orgulho de papai oferecendo-lhe esta grande quantia. Portanto eu peo ao senhor que no envie a ele nenhum comunicado at que eu volte para casa.
O gerente assentiu, reparando o quanto Alecia estava bonita.
- Entendo perfeitamente, miss Stambrook, e vou cuidar disso at que nos avise de sua volta. Seu pai poder continuar emitindo cheques como de costume.
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- Muito obrigada, sr. Graham, muito obrigada, mesmo. - Ela sorriu.
Depois voltou para casa e deu a Bessie uma boa quantia para que pagasse tudo o que deviam na vizinhana e comprasse mantimentos para, no mnimo, um ms.
- com todo esse dinheiro em casa vou ficar com medo de ladres! - exclamou Bessie.
- Esconda em algum lugar - sugeriu Alecia. - Voc sabe to bem quanto eu que os ladres no imaginam encontrar nada de valor nesta casa!
Bessie riu.
- Tem razo, miss Alecia, s  uma pena que lady Charis no tivesse tido essa generosidade antes que vendssemos as jias de sua me.
Alecia entristeceu-se com a lembrana, mas disse apenas:
- No deixe papai saber que as coisas melhoraram. Alis, duvido que ele perceba a diferena.
- Ele no  deste mundo, vive com a cabea nas nuvens e nunca pe os ps no cho! - comentou Bessie. Fez uma pausa, depois acrescentou afetuosamente: Cuide-se bem,
miss Alecia. Sei que merece divertir-se com lady Charis, mas, por outro lado, tenha cuidado com os homens em Londres. Muitas moas decentes j tiveram suas vidas
arruinadas por causa deles!
Alecia,  claro, no dissera a Bessie que iria sair do pas e, quando a carruagem chegou, ela estava esperando na porta, para que o cocheiro no tivesse oportunidade
de dizer que no iriam para Londres, como seu pai e Bessie pensavam, mas sim para Dover.
- Infelizmente, priminha, voc precisar estar sozinha na primeira parte da viagem - dissera Charis. Mas, assim que chegar ao "Green Dragon", encontrar a sra. Belton,
o acompanhante que lord Kiniston providenciou e, sem dvida, uma criada de quarto.
Alecia arregalou os olhos.
- Uma criada de quarto! Mas ela vai saber que eu no sou voc!
- Planejei tudo cuidadosamente - retrucou Charis.
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- Tive de contar o segredo a Martha, que est comigo h anos. Adorou saber que eu vou me casar com Harry e arranjou uma parente que  excelente criada de quarto.
Ela pensa que Martha est de folga e ir substitu-la para acompanhar-me na viagem at a Frana. Alecia deu uma risadinha nervosa.
- Est ficando cada vez mais complicado! E mais assustador. Tem certeza mesmo de que a nova criada vai pensar que eu sou voc?
- Martha mentiu to bem quanto eu! - Charis riu, antes de acrescentar: - Lembra-se de que, quando ramos crianas eu sempre ficava de castigo por mentir, enquanto
voc era a boazinha que nunca mentia e era sempre apontada como bom exemplo?
- Ah,  exagero seu!
Por outro lado, admitia no ntimo que no gostava de mentir. S esperava no ter de dizer muitas mentiras.
Assim que colocou o elegante vestido de viagem, com uma capa debruada de pele, e o chapu mais bonito que j usara, sentiu que assumira seu papel, no s se parecendo
com Chris, mas tambm sentindo-se como ela.
Contudo estava consciente de no ter a mesma segurana ou a autoridade que Chris adquirira desde que se tornara um sucesso no mundo social.
O orgulho de Alecia impedia-a de demonstrar o nervosismo que estava sentindo e fazia-a caminhar de cabea erguida ao entrar no "Green Dragon".
O proprietrio saiu apressado para receber a ocupante de uma carruagem to elegante e requintada.
- Sou lady Langley - Alecia conseguiu dizer -, e creio que a sra. Belton est a minha espera.
- Certamente, my lady - disse o proprietrio, esfregando as mos. - Acompanhe-me, por favor, vou levla  sala de visitas.
Ele tomou a dianteira e Alecia seguiu-o.
Assim que abriu a porta ela viu, para seu alvio, que a sra. Belton era uma mulher simples, de aparncia simptica, com um sorriso acolhedor.
- Ah, que bom que chegou lady Charis! - exclamou
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a sra. Belton. - Eu estava preocupada que pudesse demorar muito e no consegussemos chegar em Dover a tempo de tomarmos o navio. O sr. Hunt me disse que ele sai
com a mar.
Alecia lanou um olhar interrogativo sobre o homem que se ergueu a sua entrada e percebeu, antes que a sra. Belton explicasse, que ela estava se referindo ao homem
que lord Kiniston encarregara de conduzi-las a salvo at Cambrai e que viera com ela de Londres.
O sr. Hunt cumprimentou Alecia com uma mesura e foi para o ptio supervisionar a troca de cavalos e providenciar uma refeio leve para o cocheiro, antes de partirem.
Alecia tambm comeu e meia hora mais tarde ela e a sra. Belton estavam confortavelmente instaladas na carruagem. O acompanhante e a criada de quarto seguiam em outra
carruagem, tambm puxada por quatro cavalos, levando a bagagem.
A estrada at Dover era boa porque era usada com frequncia pelo prncipe regente, por isso avanavam com rapidez.
Logo no incio da viagem Alecia percebeu que a sra. Belton era uma inveterada tagarela.
Falou sem parar sobre sua estada em Londres, sobre como estava ansiosa para reencontrar o marido e como ele e a maioria dos oficiais estavam se entediando com o
servio no Exrcito de Ocupao, que era to pouco.
- A guerra  uma coisa muito diferente, lady Charis, e no se pode censurar um homem por preferir a excitao da guerra.
- Eu acho a guerra terrvel - retrucou Alecia.
- Bem, voc no deve dizer isso ao seu tutor - riu a sra. Belton -, considerando-se o sucesso que a guerra trouxe a ele.
- Sucesso? - estranhou Alecia.
Percebeu que no sabia nada a respeito de lord Kiniston e talvez essa fosse uma boa oportunidade de ficar sabendo algo sobre ele.
- Voc deve saber, lady Charis, que lord Kiniston  um dos soldados mais brilhantes que j tivemos no Exrcito britnico, com exceo,  claro, de Sua Graa.
- No, eu no sabia - murmurou Alecia.
- Bem, para comear, ele  o mais jovem general...
- O mais jovem? Pensei que ele fosse um velho! A sra. Belton riu.
- Ah, no, minha cara, voc est muito enganada. Ele no deve ter mais do que trinta e trs anos, e passou a general depois de uma batalha na qual seu oficialcomandante
foi morto. Ele, ento, assumiu o comando usando tticas to brilhantes que os franceses bateram em retirada e quase no houve baixas no nosso exrcito.
- S trinta e trs! - murmurou Alecia, admirada.
- , s isso, mas voc vai ver que ele impe respeito e temor. Dizem que se espelhou em Sua Graa, mas eu francamente acho o duque mais fcil de se conversar e bem
mais humano do que lord Kiniston.
- Por qu?
- Bem, ele tem um jeito... - A sra. Belton parecia procurar palavras. - Um jeito de olhar atravs da gente... no sei explicar... mas  como se ele achasse que h
algo alm da superfcie que  muito mais interessante do que o que se v com um olhar comum. Ah, eu no sei! explicar... nunca fui boa para analisar pessoas, mas
 o que sinto de lord Kiniston e dizem que ele descobre os segredos das pessoas, por isso o duque confia nele.
Alecia quase perdeu a respirao.
Isso era alarmante e ficou imaginando que lord Kiniston iria desconfiar dela assim que a visse. O que faria se ele lhe pedisse explicaes?
Em seguida procurou tranqilizar-se pensando que no havia motivo para ele desconfiar de sua identidade.
A sra. Belton continuava falando.
- Naturalmente voc entende que, sendo to jovem, to bonito e, claro, to rico, as mulheres achem seu tutor irresistvel.
- Mulheres? Pensei que no houvesse muitas em Cambrai.
Em sua mente imaginara que uma cidade ocupada estaria cheia de soldados fardados e os oficiais, como lord
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Kimston, estariam preocupados em manter a ordem e manobrar as tropas. A sra. Belton riu de novo.
- Estou vendo que vai ter uma bela surpresa, lady Charis! Voc deve ter pensado, como eu pensei, que a vida em Cambrai significa a austeridade e o desconforto dos
quartis. Mas eu lhe garanto que a vida l  bem melhor do que isso!
Prosseguiu, explicando que o duque de Wellington ocupara um castelo em Mont-Saint-Martin, que ficava a uns vinte quilmetros de Cambrai.
- Na verdade ele lanou a moda - disse a sra. Belton. - Pois imediatamente fora Kiniston tomou um outro castelo, quase to grande quanto o do duque e mais bem mobiliado.
E recebem vrios convidados.
- Eu no entendo... No sabia que haveria tanto divertimento em Cambrai, embora saiba que o duque tem uma casa em Paris.
Fora a prima que lhe dissera isso, mas no a instrura muito mais. Ela tambm no imaginara que haveria vida social numa cidade ocupada.
- Estou vendo que vai ter uma bela surpresa, mesmo! - repetiu a sra. Belton. - E, como voc  bonita e atraente, acho que lady Lillian Somerset tambm vai ter uma
surpresa.
- Quem  lady Lillian?
- Segundo os mexericos, ela  a "amiguinha" de lord Kiniston e pretende se tornar a esposa dele.
Alecia fez cara de surpresa e a sra. Belton prosseguiu:
- O marido dela foi morto h dois anos, e como ela  prima de lord Kiniston, passou a cuidar do castelo para ele e vai ser sua dama de companhia enquanto voc estiver
l.
Alecia ficou imaginando se isso no tornaria as coisas mais difceis ainda do que j estavam, mas depois concluiu que, se lord Kiniston estivesse interessado em
lady Lillian, talvez no lhe desse muita ateno e assim ficaria mais fcil desempenhar seu papel.
A sra. Belton continuava falando:
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- Na verdade eu no aprecio muito lady Lillian. Ela  extica demais para meu gosto, e ainda bem que meu marido acha a mesma coisa. A preferida do duque de Wellington
 bem diferente.
- Quem ?
- O nome dela  Marianne Patterson - retrucou a sra Belton, encantada por ter quem a escutasse. - Ela e as duas irms so americanas e conhecidas como "LAs Trs
Graas". Eu lhe garanto que muitas mulheres tm
inveja delas.
- Americanas? - admirou-se Alecia.
- , vieram de Baltimore e so bisnetas de um multimilionrio, Charles Caton.
- Nunca vi um americano - disse Alecia. Depois pensou que talvez fosse indiscreto ter dito isso,
j que Charis provavelmente encontrara vrios em
Londres.
- Bem, tenho certeza de que achar as trs irms encantadoras. J quanto a lady Lillian, tenho minhas
dvidas.
- Assim a senhora me deixa nervosa!
A sra. Belton riu e disse:
- Pelo que j ouvi a seu respeito, lady Charis, no acredito que algo a deixe nervosa!
Chegaram a Dover por volta de cinco horas e o navio estava ancorado no cais.
Alecia achou-o grande e, de repente, teve medo de enjoar a bordo, j que nunca viajara por mar. Junto com sua bagagem viu vrios cestos de vime e estranhou. Disseram-lhe,
ento, que era comida.
- Comida? - admirou-se. - Mas por que?
- Devemos levar s algumas horas cruzando o canal, mas se houver calmaria podemos ficar detidos por mais tempo - explicou o acompanhante delas. - Em uma das minhas
viagens o navio ficou parado por trs dias, e eu j soube de casos em que os passageiros foram obrigados a ficar onze dias no meio do canal.
Isso era algo que Alecia jamais imaginara e assustava-a um pouco. Ps-se a rezar para que fizessem boa viagem.
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Assim que o navio saiu do cais, a sra. Belton foi para sua cabina dizendo que costumava enjoar e s melhorava ficando deitada.
Alecia achou um alvio, depois de tanta conversa, poder observar tranquila o navio afastando-se do porto. Em seguida foi para sua cabina, onde Sarah, sua criada
de quarto, retirava da mala tudo o que ela precisaria para a noite. 
A sr Belton no apareceu para jantar. A refeio, fornecida por lord Kiniston, foi deliciosa e rica, na opinio
de Alecia.
Foram servidos pat, frango frio com um recheio delicioso e costeletas de carneiro com galantina de ervas.
Para sobremesa, frutas frescas de Kiniston Hall, e para beber, vinho branco seguido de um clarete que seu pai
teria adorado.
Depois dessa lauta refeio, Alecia foi deitar-se e logo adormeceu. Acordou na manh seguinte com os rudos
do convs.
Pouco depois o sr. Hunt bateu em sua cabina dizendo que estariam no porto de Calais dentro de uma hora.
Assim Alecia teve tempo de vestir-se, tomar o caf da manh e ir para o convs apreciar a chegada  cidade
francesa.
Calais no a decepcionou, embora o sr. Hunt dissesse com desdm que no era um dos portos mais bonitos.
S depois de o navio ter ancorado  que a sra. Belton apareceu, plida e com aparncia de quem no dormira
bem  noite.
Havia tantas coisas nas ruas de Calais que Alecia gostaria de ver! As pessoas, as crianas, as casas com venezianas nas janelas, mas o sr. Hunt conduziu-a apressadamente
para as carruagens que estavam  espera.
Alecia notou que os cocheiros usavam fardas britnicas e que os batedores a cavalo tambm eram soldados. Havia dois para cada carruagem e iam adiante, em caso de
haver tumultos nas ruas.
Logo a sra. Belton sentiu-se disposta novamente e comeou a tagarelar. Alecia, entretanto, nem ouvia o
que ela dizia, estava interessada em olhar pela janela.
Tendo ouvido histrias terrveis sobre a situao difcil da Frana sob o comando de Napoleo, ela se admirava de ver tanta terra cultivada, com as plantaes viosas
brilhando ao sol.
Por outro lado, notava que havia poucos homens que no fossem velhos ou crianas e que o trabalho estava sendo feito pelas mulheres.
A guerra era uma coisa m e cruel, pensou ela, e lembrou-se logo de que a sra. Belton a avisara para no dizer essas coisas a lord Kiniston.
Passaram a noite numa hospedaria ao sul de St. Omer e saram na manh seguinte bem cedo para chegarem a seu destino antes do cair da noite.
J estava comeando a escurecer quando a sra. Belton exclamou com satisfao que estavam nos arredores de Cambrai e em poucos minutos avistariam o castelo de lord
Kiniston, mais prximo do que o do duque de Wellington.
Ento Alecia notou que estava tensa, cansada da longa viagem e de tanto ouvir a sra. Belton falar.
Ela no parara de falar sobre as muitas mulheres que se apaixonaram por lord Kiniston, obviamente um de seus temas prediletos.
Alecia, que s de pensar nele tremia de medo, no aguentava mais ouvir sobre o que ele fazia ou por quem se interessava.
Ainda no conseguira entender por que chamara Charis para ir encontr-lo na Frana.
No podia deixar de achar extraordinrio que, tendo lady Lillian e tantas mulheres disputando sua ateno, ele fosse de repente preocupar-se com uma jovem de quem
era tutor h mais de um ano sem nem lembrar de sua existncia.
Talvez quando chegasse a Cambrai descobrisse as respostas, mas naquele momento tudo lhe parecia incompreensvel.
Agora, entretanto, sentindo-se cansada da viagem, podia entender que, se Charis estivesse em seu lugar, estaria triste, sentindo que cada quilmetro a levava cada
vez para mais longe de Harry.
Ela prpria sentia-se como se estivesse entrando num mundo novo, deixando para trs tudo o que lhe era familiar.
Repetiu para si que precisava desempenhar seu papel com muita habilidade para que lord Kiniston no desconfiasse de nada.
Por outro lado, preparava-se para voltar sozinha quando tudo estivesse terminado. Tinha a horrvel sensao de que ele ficaria to bravo quando soubesse da verdade
e haveria de recusar-se a providenciar-lhe escolta militar e proteo, como a que tivera ento.
A sra. Belton j lhe contara histrias horripilantes sobre viajantes na Frana que tinham sido roubados, de quem os ladres levavam no s as bagagens como tambm
as roupas do corpo, pois os franceses ainda estavam sofrendo as consequncias da falta de alimentos, gerada no fim da guerra, quando Napoleo requisitara todos os
homens disponveis, deixando a lavoura sem braos para o plantio.
Alecia tentava se consolar imaginando que algum a ajudaria.
Ento, quando o sol j sumia no horizonte, tingindo o cu de dourado e rubro, ela avistou um lindo castelo.
Era tipicamente francs, cercado de rvores e com um jardim bem cuidado, onde havia uma fonte cuja gua brilhava aos ltimos raios de sol.
Era to lindo que ela o achou uma bno depois de to longa viagem. Mas logo lembrou-se de que seria ali que o verdadeiro teste iria comear, e que precisaria ficar
alerta e muito atenta a tudo o que iria dizer.
- Aqui estamos! - disse a sra. Belton. - Graas a Deus que a viagem terminou e no houve nenhum incidente desagradvel. No pense que os franceses gostam de ter
um Exrcito de Ocupao aqui. Eles detestam isso!
- Ah,  claro - murmurou Alecia. - Tenho certeza
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de que ningum gosta de ser conquistado e humilhado.
A carruagem parou diante do castelo e, no topo dos degraus de entrada, vrios criados as esperavam, enquanto ao lado da escada sentinelas de guarda apresentaram
armas assim que elas desceram da carruagem.
A sra. Belton foi na frente, e no topo da escada apareceu um criado com um ajudante-de-ordens.
-  um prazer v-la, sra. Belton - disse o ajudante-de-ordens. - Pensamos que talvez pudesse demorar mais para chegar, por isso lord Kiniston j foi vestir-se para
o jantar.
- Creio que estamos um pouco atrasadas - retrucou a sra. Belton -, mas enfim chegamos. Deixe-me apresent-lo a lady Charis Langley.
- Estava ansioso para conhec-la, my lady. O ajudante-de-ordens sorriu.
Vendo admirao nos olhos dele e notando o modo como segurava sua mo demoradamente, ela pensou que a fama de Charis evidentemente a precedera e o ajudante-de-ordens
estava pensando no sucesso que ela tivera em Londres.
- Sei que lord Kiniston no se importar se atrasar! um pouco o jantar, mas no mais do que o estritamente necessrio - disse o ajudante-de-ordens. - Portanto, vou
fazer com que as levem a seus aposentos imediatamente e tenho certeza de que no se demoraro.
- Faremos o possvel - disse a sra. Belton -, mas tenho a impresso de que levarei horas para lavar toda essa poeira da viagem!
A governanta apareceu e, depois de fazer a formal mesura, conduziu-as aos aposentos que lhes foram destinados.
A bagagem foi levada imediatamente tambm e, enquanto Alecia tomava um banho, a nova criada, com a qual trocara s algumas palavras no navio, preparou-lhe um vestido
que no estava amassado.
O banho fora preparado por uma outra criada e perfumado com verbena. Alecia s lamentou no poder demorar-se ali o suficiente para relaxar o cansao da viagem, mas
no queria atrasar-se ofendendo seu guardio antes mesmo de conhec-lo.
Tinha percebido pelo que falara o ajudante-de-ordens, e pela pressa com que foram levadas para cima, que lord Kiniston no gostava de esperar pelas refeies.
Achou que seria mais sensato se ela e a sra. Belton no descessem aquela noite, assim ela tambm adiaria o que teria de enfrentar, mas sabia que era impossvel.
As criadas ajudaram-na a vestir-se, pentearam-lhe os cabelos do modo como Charis lhe dissera ser a ltima moda, e, pegando uma bolsinha que combinava com o vestido,
ela apressou-se em descer.
Foi escoltada por um criado que a esperava do lado de fora do quarto.
Finalmente chegara o momento to assustador e embaraoso que tanto temia.
"Preciso lembrar que sou Charis", disse para si mesma, em pensamento.
Atravessou o hall de mrmore rezando para que no cometesse nenhum erro, nem parecesse tmida ou desajeitada.
"Eu sou Charis! Eu sou Charis!", repetiu vrias vzes.
O mordomo, ento, abriu as portas do salo e anunciou com voz sonora:
- Lady Charis Langley, my lord!
Por instantes tudo pareceu rodar diante dos olhos de Alecia e ela s pde perceber que a sala estava cheia de gente.
Ento um homem adiantou-se devagar, afastando-se de perto da lareira onde estava, e encaminhou-se para ela, sob a luz dos candelabros de cristal.
Notou que era alto, de ombros largos, e entendeu que devia ser lord Kiniston, seu suposto tutor.
Ela demorou um instante para erguer o olhar e fix-lo no rosto dele.
Era muito diferente do que imaginara e, ao mesmo tempo, exatamente como Charis pensara que seria e como a sra. Belton o descrevera.
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Imponente, autoritrio, com um olhar penetrante, e, aos olhos de Alecia, decididamente assustador.
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CAPTULO 3
Uns dez dias antes da chegada de Alecia a Cambrai, lord Kiniston estava sentado  escrivaninha, escrevendo, num pequeno salo que dava para o jardim, quando a porta
se abriu.
Ele ergueu o olhar e, com uma expresso de alegria, disse:
- Voc voltou, Willy! Graas a Deus!
O major William Lygon entrou e fechou a porta.
Era alto, encorpado e bonito, com um certo ar de vulgaridade e uns olhos brilhantes que cativavam a todos que o conheciam.
- , eu voltei, Drogo - disse ele. - Aconteceu alguma coisa de interessante enquanto eu estive fora?
- Nada - retrucou lord Kiniston, saindo de trs da escrivaninha e indo para diante da lareira de mrmore.
O major Lygon sentou-se numa confortvel poltrona.
- Posso acreditar - disse ao sentar-se. - Voc  que perdeu muita coisa em Londres! No estou nem um pouco entusiasmado por voltar a este fim de mundo esquecido
por Deus!
- H muito trabalho para voc - comentou lord Kiniston, lacnico. - O Grande Homem est apertando a gente, porque os franceses se queixaram de que alguns de nossos
homens so indisciplinados.
- Santo Deus, quem pode censur-los? Mas, mudando de assunto, voc gostar de saber que eu trouxe quatro casais de ces de caa e um spaniel para a coleo do duque.
Fiquei sabendo que daqui a uma semana sero mandados trs veados.
- Santo Deus! Pois eu fiquei sabendo que ele est
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decidido a organizar caas a javalis e porcos-do-mato, coisa em que sempre se saa muito bem quando estava na ndia.
- O que mais voc pode querer? - disse Willy, sarcstico.
- S que o Grande Homem se limite ao esporte. O modo como falou e seu tom de voz fizeram o amigo olh-lo com curiosidade.
Tinham sido colegas em Eton e, depois de pouco tempo em Oxford, se engajado no mesmo regimento, tambm no mesmo dia.
S que lord Kiniston escalara a escada do sucesso bem mais rpido do que William Lygon, que no se preocupava nem um pouco com isso.
Ele gostava de viver  vontade e era bem-humorado demais para invejar algum ou para envolver-se em qualquer tipo de briga ou disputa.
Tinha uma grande afeio por Drogo Kiniston.
- O que o Grande Homem est fazendo para voc?
- perguntou ele ao amigo.
- Est querendo que eu me case! - disse lord Kiniston com franqueza.
Willy empertigou-se na poltrona.
- No posso acreditar!
-  verdade!
- Mas por qu? E com quem?
Lord Kiniston ficou calado por instantes antes de responder.
- Antes de voc ir embora, lembra-se de como ele estava visivelmente interessado em Marianne Patterson?
- Claro que lembro!
- Pois , com aquele jeito dele de aconselhar e ajudar as mulheres bonitas, ele se props a arranjar marido para as duas irms solteiras dela.
- Da ele escolheu voc para marido? - caoou Willy. -  inacreditvel!
- Ele j deixou bem claro que espera que eu pea a mo de Elizabeth. Louisa ele reservou para Felton-Hervey.
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- Quer dizer que o perfeito ajudante-de-ordens vai ser laado, afinal?
- Acho que sim - respondeu, srio. - com o duque pressionando-o, vai ser difcil para ele escapar.
- E voc, o que vai fazer?
- Esperava que voc me desse essa resposta. Suponho que no esteja pretendendo entrar para o rol dos casados, ou est?
- Eu no - disse com firmeza. - Alm disso, "As Trs Graas" no me considerariam suficientemente rico ou importante. Ouvi dizer que elas querem coroas para suas
cabeas!
- Hervey pode proporcionar uma - comentou lord Kiniston.
- E voc tambm. Elizabeth, sem dvida, no vai desprez-la!
- Maldio! - disse lord Kiniston, com raiva. - No vou ser arrastado ao altar por ningum! Nem mesmo pelo Grande Homem! Se as coisas piorarem eu renuncio ao posto!
- Voc no pode fazer isso! - disse Willy, depressa.
- Assim que eu cheguei aqui, fiquei sabendo que aumentam as hostilidades contra a Ocupao, e que o Rei Louis implorou a Wellington para ficar em Paris, quando esteve
l, em apoio a seu governo.
- Tambm ouvi esse comentrio, mas o Conselho Britnico acha que ele est mais seguro aqui em Cambrai.
- Tambm acho - disse Willy, pensativo.
- Eu, pessoalmente, acho que eles esto se preocupando sem necessidade - retrucou lord Kiniston. - O duque outro dia me disse que gostaria que o Conselho Britnico
deixasse de pensar que ele est querendo ser assassinado pela populao francesa.
- Bem, ningum quer uma coisa dessas. - Willy sorriu. - E, se h qualquer risco de o duque ou voc serem atacados, ento  melhor ficarem aqui, por mais montono
que seja. Por falar nisso, como vai lady Lillian?
Houve uma pausa antes que lord Kiniston respondesse.
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- Falando francamente, Willy, estou comeando a achar que ela est abusando de minha hospitalidade. J ficou mais do que devia.
Willy ergueu as sobrancelhas.
Antes de partir para a Inglaterra, achara que o romance do amigo com a bela lady Lillian acabaria fatalmente em casamento.
Contudo, reconhecia agora que no era de surpreender que Drogo estivesse entediado.
As mulheres se agarravam a ele, pressionavam-no de todas as maneiras, tentavam amarr-lo usando de todas! as armas de que dispunham.
Portanto, no era nada surpreendente que seus romances nunca durassem muito.
Toda vez que uma mulher comeava a se tornar possessiva, lord Kiniston ficava inquieto, impaciente, e em pouco tempo comeavam as lgrimas, recriminaes e queixas
que inevitavelmente no o comoviam.
- Pelo que vejo voc est numa confuso total! disse Willy. - Acho que na verdade lady Lillian est com cimes de Elizabeth Caton e com medo de que o duque consiga
afast-lo dela definitivamente.
- At parece que sou o nico homem do mundo! comentou com sarcasmo, fazendo o amigo rir. - Tenho mais um problema, ainda - disse lord Kiniston, depois de um instante
-, e nesse voc vai poder me ajudar.
- O que ?
Lord Kiniston foi at a escrivaninha, pegou uma carta e voltou para perto da lareira, antes de dizer:
-  do procurador do falecido conde de Langhaven. Lembra-se dele?
- Lembro,  claro. Eu at gostava muito dele. Era um bom soldado.
Lord Kiniston no respondeu. Ficou olhando para a carta, depois falou:
- Na verdade eu havia me esquecido, e s lembrei quando o procurador me escreveu h um ano, de que ele me deixou como tutor da filha dele.
- Da filha dele! No me diga que voc  o tutor da
"Afrodite"? Lord Kiniston ergueu a cabea.
- Est se referindo a lady Charis Langley?
- Claro que sim - retrucou Willy. - Ela  a jovem mais comentada e admirada em toda Londres. O que eu quero dizer  que, se  mesmo o tutor dela, poderia t-la apresentado
a mim!
- Nunca vi a moa. No a conheo nem sequer ouvi falar nela a no ser depois da morte do pai.
- Pois ento eu vou lhe falar sobre ela. S a vi de longe, mas de fato  linda e encantadora. Todos os homens que a conhecem caem a seus ps imediatamente.
- Que dramtico! - comentou lord Kiniston, com sarcasmo.
- Foi s ela aparecer em Londres na ltima temporada para se tornar um sucesso - prosseguiu Willy. Na verdade, enquanto eu estava aqui, cansei de ouvir falar dos
encantos e atrativos dela. Depois o pai morreu e ela ficou de luto. Quando estive l desta vez, descobri que ainda falavam nela. O livro de apostas em White est
cheio de nomes de apostadores dizendo qual ser o caa-dotes que a levar como prmio.
- Caa-dotes?
- Ela no  s bonita, mas tambm muito rica - disse Willy. - E os jovens aristocratas falidos acham isso uma combinao irresistvel.
- Isso explica o contedo desta carta.
- Leia-a para mim.
- Como j lhe disse,  do procurador de Langhaven. Ele diz a que, j que eu no respondi  ltima carta que me escreveu por ocasio da morte de seu cliente, continuou
supervisionando os negcios de lady Charis da melhor maneira possvel. - Lord Kiniston ergueu o olhar e fitou o amigo. - Porm ele ficou preocupado com o fato de
ela ter pedido a liberao de vinte mil libras para a instalao de uma fazenda de criao de cavalos de corrida. Ele achou que nessas circunstncias era melhor
submeter a minha aprovao antes de liberar essa importncia to grande.
- Vinte mil libras? - espantou-se Willy. - Quem
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estar arrancando dela essa quantia toda?
Lord Kiniston no respondeu, e depois de instantes Willy prosseguiu:
- Pode ser Parkington. Sei que ele est "a zero", e Hexton, como voc sabe, h anos reclama que sua manso est literalmente caindo aos pedaos. Ambos esto no livro
em White.
- E ambos so esbanjadores de fortunas! - disse lord Kiniston, severo. - Parkington vive jogando e Hexton bebe demais!
- Talvez a "Afrodite" modifique aquele que ela escolher... - comentou Willy, irnico.
Em seguida exclamou:
- Tenho uma ideia, Drogo!
- O que ?
- Por que-no convida sua tutelada para vir aqui? Seria bom para voc conhec-la e, depois, com a "Afrodite" em sua casa, o duque acharia impossvel que uma das
"Trs Graas" atrasse sua ateno.
Lord Kiniston olhou para o amigo, surpreso, depois disse:
- Voc est mesmo sugerindo que...
- Voc  o tutor dela - interrompeu Wily. - E creio que ela no poder se casar sem sua aprovao enquanto no, for maior de vinte e um anos.
-  claro que no! - concordou ele, como se no houvesse pensado nisso antes.
- Por falar nisso - disse Willy -, por que diabos Langhaven fez voc tutor da menina, afinal?
Lord Kiniston sorriu e isso suavizou-lhe a expresso severa.
- Foi logo depois do armistcio, quando nos engajamos no regimento. Acho que voc se esqueceu, mas eu era bem mais comentado do que voc, porque com a morte de meu
pai os jornais publicaram notcias sobre minha herana, exagerando at.
- Eu me lembro.
- E deve lembrar tambm que, antes de nossa primeira batalha em Portugal, o velho Schofield, que era nosso
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comandante na poca, nos aconselhou a fazer testamentos. Sempre achei que isso foi uma atitude brutal e horripilante, pois deixava claro que alguns de ns, seno
todos, iriam morrer.
- Eu no estava com voc na ocasio. Tinha sido enviado para fazer o reconhecimento da posio do inimigo, uma misso quase impossvel no escuro!
- Tinha me esquecido disso - retrucou lord Kiniston. - Bem, ento fizemos o que ele props e pusemo-nos a escrever nossos testamentos. Ento Langhaven, que ainda
no possua o ttulo, entrou na sala e disse: "Sugiro que levem isso a srio e indiquem para seus filhos, se os tiverem, um tutor responsvel que cuidar deles se
algo acontecer a suas esposas".
- Ele falou com seriedade - prosseguiu Kiniston -, mas havia um brilho maroto em seu olhar, j que a maioria dos oficiais eram solteiros e os outros tinham parentes
importantes que evidentemente conheciam suas responsabilidades. Da, quando Langhaven e eu sentamo-nos  mesa ele falou: "Eu, pessoalmente, no me lembro de ningum
suficientemente importante ou rico para cuidar de minha filha. Voc acha que a rainha aceitaria? "
- Todos riram - prosseguiu Kiniston. - Ento, algum que no me lembro quem era disse: "Por que no indica o jovem Kiniston? Todos ns sabemos o quanto  rico e,
sem dvida,  bastante importante. Dar um excelente tutor! "
- Ento foi assim que aconteceu! - exclamou Willy.
- Nunca mais pensei nisso - continuou lord Kiniston - at o ano passado, quando Langhaven morreu e o procurador dele escreveu dizendo que eu era o tutor da menina.
Percebi, ento, que ele no fizera outro testamento.
- E voc no respondeu  carta?
- No. Estava muito ocupado na ocasio e depois acabei esquecendo. Agora, chegou esta outra carta ontem.
- Bem, eu j lhe disse o que fazer.
- Sua ideia foi ridcula! - exclamou Kiniston. Em seguida ficou calado e, observando-o, Willy percebeu que ele estava refletindo.
- Por outro lado - disse, depois de instantes -, o duque j deixou bem claro o que quer de mim...
- E lady Lillian est criando dificuldades - acrescentou Willy.
- vou fazer o que voc sugeriu! - exclamou lord Kiniston de repente. - Afinal, vinte mil libras  muito dinheiro para uma jovem largar nas mos de um caa-dotes!
Ele pode nem saber conhecer um bom cavalo!
- Voc tem razo. E, com essa quantia toda, at eu gostaria de participar dessa criao de cavalos!
Lord Kiniston no disse mais nada, apenas sentou-se  mesinha e escreveu duas cartas, a primeira para o procurador dizendo que iria tratar da questo no devido tempo,
e a segunda para sua tutelada desconhecida, lady Charis Langley.
Depois de ter entregue as cartas ao encarregado da correspondncia diria, lady Lillian entrou na sala.
Era uma mulher extremamente atraente, acostumada a usar sua aparncia para atrair o homem que desejasse.
Desde o primeiro instante em que vira seu primo distante, lord Kiniston, decidiu atra-lo e escraviz-lo. S no conseguiu logo seu objetivo porque tanto o primo
quanto o marido ficaram na pennsula lutando, por dois anos.
Depois George Somerset morreu, e quando ela soube que Drogo Kiniston estava em Paris, organizando o Exrcito de Ocupao com o duque de Wellington, partiu imediatamente
para a capital francesa. Conseguiu ser convidada para hospedar-se alguns dias na manso do duque nos Champs Elyses.
Depois disso foi fcil seguir com lord Kiniston para Cambrai e instalar-se no castelo.
Nessa ocasio ele a achava no s til de vrias maneiras, mas tambm extremamente atraente como mulher.
Na verdade, de todos os romances que tivera quando no estava nos campos de batalha, nunca conhecera uma mulher to ardente e insacivel.
Olhando para ela agora, no momento em que entrava na sala, com os olhos grandes puxados, que lhe davam
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um ar misterioso, e os lbios rubros fazendo beicinho por achar-se negligenciada, Willy concluiu que seria difcil alguma outra mulher parecer to extica e sedutora.
Contudo, conhecendo Drogo to bem quanto conhecia, percebeu que ele se retraiu quando as mos elegantes dela o tocaram, como se essa intimidade o incomodasse.
- Como  que voc pde me negligenciar por tanto tempo assim, Drogo querido? - disse lady Lillian. Estou esperando-o h horas no salo. Disseram-me que voc estava
em conferncia e eu pensei que houvesse vrios oficiais aqui.
- S Willy - retrucou Kiniston.
Devagar Willy ergueu-se da poltrona quando lady Lillian virou-se para olh-lo.
- Ento voc voltou! - disse ela em tom inexpressivo.
- , voltei, lady Lillian, e certamente estou encantado de v-la to luminosa quanto um raio de sol.
Havia sempre um certo tom sarcstico na voz de Willy quando fazia-lhe um elogio-e lady Lillian se ressentia porque sabia que ele estava zombando dela.
- Ningum me avisou que voc voltaria hoje! - disse ela. - Afinal, estou dirigindo esta casa para Drogo e pode ser que no seja conveniente hosped-lo.
- Est tudo bem - retrucou Willy. - Meu quarto favorito ficou reservado para mim e, como voc deve saber, meus pertences ainda esto l!
Sabendo que no poderia recusar-se a aceit-lo, lady Lillian simplesmente deu de ombros, e lanando um olhar irresistvel para lord Kiniston disse:
- Drogo, querido, se voc tiver tempo, depois do almoo, me leva para um passeio? Parece que h dias estou trancada nesta casa sem uma oportunidade de ficar a ss
com voc!
Isso no era verdade, pois na noite anterior tinham ficado juntos. Mas Lillian achou que Kiniston no gostaria que Willy soubesse do relacionamento deles.
- Infelizmente esta tarde ser impossvel - retrucou Lord Kiniston. - O duque requisitou minha presena s
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duas horas, por isso precisamos almoar cedo.
- Ah, neste caso,  melhor eu ir cuidar disso - disse-lHi-Sse ela -, seno voc poder se atrasar.
Foi at a porta e virou-se para dizer:
- Espero que seja para tratar de assuntos militares e no para voc se encontrar com aquelas Caton sem a minha presena!
- Eu estou louco para rever "As Trs Graas" - comentou Willy, sabendo que seu interesse aborreceria Lillian.
- Pois no ter muito trabalho para v-las - retrucou ela, mordaz. - Elas vivem grudadas no duque. Marianne Patterson, ento, convenceu-o at a lev-la a conhecer
o campo de Waterloo!
- Admiro-me que ele tenha concordado com isso - disse Willy.
- Foi uma atitude egosta - falou Lillian. - E ela prpria depois confessou que, se soubesse da angstia que ele sentiria diante de tal viso, jamais teria sugerido
o passeio.
- Acho que no mesmo - disse Willy -, pois todos ns sabemos o quanto ele detesta falar no assunto, quanto mais ver!
- Foi um grave erro - concordou Kiniston -, o Que no dever se repetir.
- Tenho certeza de que voc, caro Drogo, cuidar disso.
Lady Lillian lanou-lhe um estonteante sorriso antes de sair da sala, deixando atrs de si o rastro de seu Perfume francs.
Por instantes os dois amigos continuaram calados.
Por fim Wily quebrou o silncio.
- Ela realmente se sente a castel aqui. Voc vai ter muita dificuldade em fazer com que se mude.
- Acho que terei de ir a Paris - comentou lord Kiniston. Novamente houve um silncio. Depois, como se quisesse mudar de assunto, disse: - Quero que voc descubra
a quem realmente, pertence esta casa.
Willy fez cara de surpresa.
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- Pensei que pertencesse ao duque de St. Briere.
- E pertence - respondeu Kiniston.
- Voc o conhece?
- Esteve aqui h uma semana para visitar o duque e tambm para saber como eu estava cuidando do castelo dele.
- E como  ele?
- Parece simptico - retrucou Kiniston. - Naturalmente faz parte do "Antigo Regime". Detesta Napoleo e diz que ficou feliz quando o derrotamos. Como consequncia
est satisfeito por eu ocupar esta casa que, segundo me disse, tinha sido confiscada pela Revoluo.
- Ele teve sorte de no ser decapitado!
- Parece que fugiu de Paris, chegando  Inglaterra, e passou grande parte da guerra em Londres e Brighton.
- Junto com vrios outros imigrantes - interferiu Willy.
- Exatamente! E, pelo que sei, foi til no fim da guerra quando voltou para a Frana disfarado e ajudou os ingleses contra o exrcito de Napoleo.
- Ele foi corajoso - retrucou Willy. - Gostaria de conhec-lo.
- Eu o convidei para jantar, hoje - disse Kiniston.
- Depois voc me diz o que achou dele.
- Voc falou como se tivesse alguma dvida quanto ao conceito que faz dele.
- Digamos que no estou bem certo, mesmo. Mas lady Lillian ficou encantada com ele e vrias outras mulheres tambm.
- Todo francs tem esse jeito de beijar a mo e olhar com eloquncia, o que as mulheres inglesas adoram comentou Willy.
Lord Kiniston riu.
- Voc tem razo, Willy, e essa  uma arte que no fazemos a menor questo de aprender. Venha, vamos dar uma olhada nos cavalos. Comprei um que vai lhe dar inveja!
- Tudo em voc me d inveja - brincou Willy. Alm de ser rico,  excelente conhecedor de mulheres e
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cavalos!
Lord Kiniston no respondeu, tomou o brao de Willy e saram da sala.
Na semana seguinte lord Kiniston achou que as coisas estavam se acelerando de um modo desagradvel que ele no podia controlar.
O duque estava convencido de que no haveria melhor marido para sua protegida Elizabeth.
Lady Lillian seria uma tola se no percebesse o que estava acontecendo e por isso agarrava-se desesperadamente  sua posio na vida do primo.
Fazia tambm questo de deixar bem claro que, depois de ter-se dado a ele, esperava que Kiniston tomasse a atitude correta e casasse com ela.
Lord Kiniston lutava contra a insistncia dela, que aumentava dia a dia.
Passava o mximo de tempo possvel com as tropas ou montado a cavalo.
Contudo, seria grosseiro se se recusasse a participar dos inmeros jantares oferecidos ao duque de Wellington.
Enquanto isso, as dificuldades polticas surgidas com a Ocupao no diminuam.
A Frana queixava-se dizendo ser impossvel alimentar os cento e cinquenta mil homens do Exrcito de Ocupao, e comeava a pressionar o duque para mandar de volta
pelo menos trinta mil homens imediatamente.
O duque estava num dilema que o tornava uma pessoa difcil de conviver.
Parecia que s Marianne Patterson conseguia pr um sorriso nos lbios dele e suavizar a expresso de seus olhos cansados.
Lord Kiniston sabia muito bem que Marianne tinha seus prprios objetivos.
Sob uma aparncia suave, feminina e atraente, era uma mulher muito determinada e estava decidida a arranjar casamentos excelentes para as duas irms, que deixariam
boquiabertas suas amigas em Baltimore.
O duque acreditava que pressionando seus melhores
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amigos a casarem com as duas moas mais encantadoras que j conhecera estava at lhes fazendo um bem.
No estava preocupado com a visvel resistncia de lord Kiniston, pois estava certo de que aos trinta e trs anos j era tempo de seu amigo casar-se, para quando
a Ocupao terminasse sair do exrcito e ir cuidar de suas enormes propriedades em Berkshire.
O duque conhecera Kiniston Hall e ficara muito impressionado. Sabia que uma americana acharia irresistvel a enorme manso construda por Robert Adam.
Portanto, comentara com Elizabeth e percebera que aos olhos dela lord Kiniston parecia cercado por uma aura de charme que talvez no fosse visvel para as moas
inglesas.
- Eu fiz o melhor que pude pelo rapaz - disse Wellington para si.
Sempre pensava em seus oficiais como "meus rapazes" e considerava-os tanto quanto seus prprios filhos.
Na verdade a vida ideal para o duque de Wellington era a do exrcito e a famlia ideal era a "famlia militar" de seus ajudantes-de-ordens.
Tendo sido infeliz no casamento, gostava de se fazer de cupido para os outros e, como toda personalidade autoritria, sempre achava saber o que era melhor para eles.
Lord Kiniston, que percebera isso logo ao conhec-lo, sabia que tal atitude podia representar um grande perigo para ele.
No desejava brigar com o homem que admirava acima de todos, nem queria que existisse qualquer animosidade entre ele e seu oficial-comandante.
Por outro lado, at aquele momento sempre fugira do casamento com tal habilidade e destreza que j se julgava esperto demais para ser apanhado.
Agora, entretanto, sabia que o cerco estava se fechando.
Se no tomasse cuidado, a questo seria escolher entre Lillian, que j comeara a aborrec-lo, e uma jovem americana com a qual no tinha nada em comum.
Tinha plena certeza de que ela tambm o aborreceria
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em poucos meses de casados.
O que deveria fazer? Era o que se perguntava naquela noite, ao deitar-se.
O problema perseguia-o desde que acordava todas as manhs e, embora tentasse escapar, no se livrava dele o dia todo.
Foi, portanto, com uma sensao de alvio que recebeu a carta de seu secretrio.
Era como se estando num forte sitiado recebesse a notcia de que uma tropa de reforo estava a caminho.
O secretrio comunicava que providncias tinham sido tomadas para que lady Charis Langley chegasse a Cambrai no dia marcado, acompanhada da sra. Belton.
Ainda no sabia bem como as coisas correriam, sabia apenas, confiando em sua intuio e imaginao, que tomara a atitude certa no momento certo.
Lord Kiniston no seria um comandante to brilhante no campo de batalha se tivesse usado apenas a mente e no a intuio tambm.
s vezes pressentia o perigo muito antes que ele se tornasse evidente. Outras vezes confiava na vitria quando tantos outros previam uma derrota.
Naquele momento a voz de seu mordomo anunciando "lady Charis Langley, my Lorde? " soava como um toque de vitria.
Ao atravessar lentamente a sala, percebeu que tudo o que Willy dissera sobre a beleza dela era verdade, e realmente era uma das jovens mais lindas e adorveis que
j vira, em toda sua vida.
-  um prazer receb-la, lady Charis, e fico feliz por ter chegado bem - disse ele, ento, tomando-lhe a mo entre as suas.
Ao fazer isso, notou que a mo dela estava ligeiramente trmula, de um modo que no entendeu bem, e quando olhou em seus olhos grandes e bonitos notou admirado que
ela estava com medo.
Por um instante julgou estar enganado, mas, como era muito experiente com mulheres, percebeu que no era fingimento. Ela estava realmente assustada.
- Deixe-me apresent-la para meus amigos - disse sem largar-lhe a mo e teve a impresso de que ela o segurava como se pedisse seu apoio.
Apresentou-a primeiro para lady Lillian, que lhe disse algumas palavras insinceras de boas-vindas, depois para vrios outros convidados. E durante todo o tempo ficou
admirado de ela parecer insegura. S Willy foi capaz de faz-la rir, um riso suave e musical.
- Lady Charis, h anos que desejo conhec-la - disse ele. - Enfim estamos sendo formalmente apresentados. Este  o momento mais emocionante de minha vida!
As palavras dele pareceram to estranhas a Alecia, que jamais ouvira um elogio ou cumprimento, que acabou rindo.
Willy insistiu:
-  verdade! Eu a vi certa vez em Londres e desde esse dia passei a rezar para que a conhecesse e pudesse lhe falar!
-  muita... gentileza sua... e muito lisonjeiro de sua parte...
Desde que lord Kiniston comeou a apresent-la, ela ficou com medo de que houvesse algum que conhecesse Charis muito bem.
Jamais imaginara que haveria um jantar com convidados do mundo social justamente na noite de sua chegada a Cambrai.
Tinha pensado que ficaria sozinha na casa, talvez s com a presena da sra. Belton como dama de companhia.
Foi s quando a esposa do major entrou em seu quarto pouco antes, naquela noite, que Alecia ficou sabendo que haveria catorze pessoas para jantar e que muitas delas
estavam hospedadas na casa.
A sra. Belton avisara-a que lady Lillian era a anfitri de lord Kiniston e ela prpria fizera questo de deixar isso bem claro para Alecia.
- Espero - disse ela, quando o jantar terminou que esteja bem instalada em seu quarto, lady Charis. Escolhi um que recebe o sol da manh, pensando que lhe agradaria.
E, sem dvida,  um dos melhores quartos da casa.
- Muita gentileza sua... - Foi s o que Alecia conseguiu dizer.
Lady Lillian prosseguiu:
- Se desejar alguma coisa, deve falar comigo. Eu procuro evitar que meu querido primo se preocupe com pequenas questes domsticas que os homens tanto detestam.
Alecia no disse nada e ela continuou:
-  claro que me empenharei em arranjar jovens atraentes e atenciosos que lhe faam companhia enquanto estiver aqui. Seu tutor  um homem muito ocupado e dificilmente
tem tempo para outra coisa que no seja o trabalho.
Mal sabia ela, pensou Alecia, que o que mais queria era ficar longe desse tal tutor.
Achou que, mesmo que no tivesse ouvido os mexericos da sra. Belton, teria desconfiado haver intimidade entre lady Lillian e lord Kiniston.
Quando os cavalheiros se juntaram s damas depois do jantar, lady Lillian foi para o lado dele e puseram-se a conversar em tom confidencial, de modo a no serem
ouvidos pelos outros.
Embora fosse evidente que ele desejasse conversar com os demais convidados, ela estava sempre por perto, interferindo e fazendo a conversa sempre que possvel centralizar-se
nela.
Alecia logo concluiu que no gostava dela.
Estava mais ouvindo do que falando e, como se percebesse isso, Willy sentou-se a seu lado, dizendo:
- Imagino que esteja cansada depois dessa longa viagem, mas no ouvi nenhum dos comentrios espirituosos que a tornaram to famosa em Londres.
- Eu no haveria de querer ser indelicada com nenhum dos presentes quando todos esto sendo to gentis comigo.
- Voc acha isso mesmo? - perguntou Willy. Ao dizer isso, no pde deixar de lanar um rpido
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olhar para lady Lillian que, ao lado de lord Kiniston, olhava na direo deles.
Temendo dar algum passo em falso e trair-se em alguma falta, Alecia disse:
- Seria indelicado eu ir me deitar? Foi um dia to longo e cansativo! Estou realmente muito cansada!
- Claro que no. Voc pode ir deitar-se. Voc  to linda que olhando-a ningum diria que est cansada!
- Voc fala assim com todo mundo? - perguntou Alecia.
- Assim como? - perguntou Willy.
- Fazendo galanteios para os quais  difcil encontrar resposta.
Willy riu e foi um riso espontneo.
Nesse momento lord Kiniston aproximou-se deles.
- O que est achando engraado, Willy?
- Lady Charis est sendo indelicada comigo queixou-se ele. - Voc nem vai acreditar, Drogo, mas ela no gosta de galanteios!
- No estava me queixando... - disse Alecia, apressada. - S que me parecem um tanto exagerados...
- Tenho certeza de que so, mesmo - falou lord Kiniston. - Voc devia aprender com os franceses a ser mais sutil, Willy.
- Agora  voc que est sendo indelicado comigo!
- resmungou Willy, mas seus olhos brilhavam. Em seguida acrescentou: - Na verdade, lady Charis est ansiosa para ir deitar-se. Creio que ela deve estar nos achando
sem graa e enfadonhos, aps todo o glamour e sofisticao de Londres.
- No, no... claro que no. Isso no  verdade! exclamou Alecia.
Ento percebeu que ela no falava srio e, erguendo os olhos para lord Kiniston, desculpou-se:
- Por favor, no quero parecer rude, mas estou cansada.
- Fique  vontade, claro. No  necessrio despedirse de todos. Venha comigo, assim  melhor.
- Ah, obrigada. No gostaria de interromper ningum - aceitou ela depressa.
Atravessaram a sala e embora lady Lillian os visse sair no disse nada.
Lord Kiniston abriu a porta que dava para o hall, acompanhou-a at o p da escada e acendeu um candelabro que lhe entregou, dizendo:
- Durma bem, lady Charis. Amanh conversaremos a respeito do motivo que me fez pedir-lhe que viesse. Por enquanto descanse, apenas. Estou certo de que deve estar
muito cansada.
- Estou mesmo.
Olhou-o por instantes e ele notou que a expresso de medo ainda estava em seus olhos. E, quando ela virou o rosto, percebeu que era tmida.
Alecia subiu a escada e ele ficou a observ-la esperando que, como todas as mulheres, ao chegar ao topo ela se voltasse para dizer boa-noite. Mas Alecia seguiu,
sem se voltar, de cabea baixa.
Kiniston achou-a adorvel, mas gostaria de saber o que a fazia ter tanto medo.
CAPTULO 4
Assim que os convidados saram, lord Kiniston foi se deitar.
Estava preocupado com sua situao, mas, enquanto se despia, viu-se pensando em Charis e em como era estranho que algum com sua fama de ser uma personalidade no
mundo social pudesse ter medo.
- O que pode t-la assustado? - perguntou-se e lembrou-se tambm do quanto ela parecera tmida, no s ao chegar como ainda naquele momento em que subira para ir
deitar-se.
Sem dvida era muito bonita, de uma beleza incomum. Como estava acostumado com mulheres sofisticadas e experientes, aquela suavidade pegou-o desprevenido. O frescor
daquela juventude era de certa forma comovente. A pele alva e viosa que no precisava de p-de-arroz; os lbios bem-feitos, rubros, sem precisarem do batom que
lady Lillian e tantas outras mulheres usavam.
Talvez tivesse ficado to impressionado por no estar acostumado a conviver com jovens. Na verdade, as irms Caton eram as primeiras que ele conhecia mais intimamente.
Sendo americanas, tanto Elizabeth quanto Louisa eram muito seguras de si e jamais demonstravam qualquer trao de timidez.
Eram provocantes com os jovens oficiais de uma maneira que nenhuma moa inglesa se atreveria e pareciam muito  vontade at mesmo com o duque.
- Gosto de mulheres com vivacidade - dissera o duque em vrias ocasies.
Lady Charis, entretanto, no tinha essa vivacidade, e
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Kiniston tinha certeza de que ela era to doce e suave quanto sua voz melodiosa.
O que o admirava era o fato de, aps seu sucesso social em Londres, ainda ficar sem jeito quando lhe faziam galanteios. No em relao a Willy, que era um brincalho.
Mas durante o jantar vira-a corar vrias vezes em conversa com outros oficiais.
Ela, sem dvida, era um enigma, foi o que concluiu ao deitar-se.
Escolhera para si o quarto que era do duque, pois era o maior e mais bem mobiliado.
Lord Kiniston recostou-se nos travesseiros e percebeu que ainda pensava em Charis.
Sabia que Lillian esperava por ele, mas, por alguma razo que no queria entender, no estava com vontade de v-la esta noite.
Como gostava de organizar tudo, incomodava-o ter em sua casa algum dando ordens da maneira que achava melhor e no como ele queria.
Logo que chegara a Cambrai tinha tanta coisa para se preocupar: alojar as tropas, providenciar comida e mant-las ocupadas para que no perturbassem a populao
francesa, que ficara at contente de poder contar com Lillian para fazer aquele tipo de coisa.
Agora, entretanto, conclua que fora um erro.
No pensara na ocasio que ela pretendia se casar, e seu primeiro passo seria estabelecer-se ali como castel e anfitri que todos tratariam como se j fosse sua
esposa.
Precisava livrar-se dela de alguma forma! E lord Kiniston sabia que o modo mais eficiente de conseguir isso seria render-se  vontade do duque e casar-se com Elizabeth
Caton.
Porm tinha conscincia de que isso seria igualmente desastroso e alheio a tudo o que queria. Por isso, afastou a ideia, nervoso.
- No vou me casar com ningum! - disse em voz alta.
Nesse momento a porta abriu-se e Lillian entrou. Ele a fitou, incrdulo, sem ao.
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Tinha ficado subentendido que ele a procuraria sempre  noite e, alm disso, era uma lei implcita dos romances que o homem  quem devia procurar a mulher, principalmente
quando se tratava de ir ao quarto.
Embora isso nem sempre fosse verdade, poucas mulheres teriam a ousadia de ir ao quarto de um homem em vez de esperar ser visitada.
Lillian estava deslumbrante, aproximando-se da cama com sensualidade, o neglige to transparente quanto a camisola.
Era impossvel ignorar a perfeio do corpo dela, tudo na medida certa que um homem poderia desejar. Os olhos dela brilhavam  luz da vela. Lord Kiniston, entretanto,
lanou-lhe um olhar frio.
- Por que veio aqui, Lillian?
A voz dele soou spera e seus olhos refletiam uma expresso que atemorizaria qualquer pessoa menos persistente do que Lillian.
- Quero conversar com voc, Drogo.
- Acho que  um pouco tarde para isso. Tive um dia muito cansativo e francamente estou exausto.
- Pobrezinho do meu amor - murmurou ela. Neste caso vou s lhe dar um beijo de boa-noite e deixlo dormir.
Ela inclinou-se para beij-lo e tarde demais lord Kiniston percebeu que no deveria deixar que ela o tocasse.
O beijo dela foi ardente e provocante e, como era muito experiente para despertar desejo no homem que a interessasse, lord Kiniston acabou sucumbindo ao fogo que
a queimava.
Embora seu corpo correspondesse ao desejo dela, sua mente mantinha-se  parte, numa atitude crtica, censurando-o por aquela tolice.
S quando comeou a amanhecer e Lillian foi embora, com um sorriso nos lbios como se fosse sua dona,  que lord Kiniston decidiu que no podia permitir que isso
continuasse.
Mais do que nunca sentiu que o que desejava de uma
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mulher era bem mais do que paixo fsica, e entendeu que Lillian s despertava a parte menos digna de seu carter.
Sabia que era culpado por aquele envolvimento, o que no melhorava em nada a situao.
Quando os primeiros raios de luz iluminaram as cortinas, ele jurou que no se casaria com Lillian, embora ela estivesse certa de que o faria, e que arranjaria um
jeito de livrar-se dela definitivamente.
Lord Kiniston dormiu apenas algumas horas, mas, como era forte e tinha formao atltica, sentiu-se descansado e acordou bem-disposto quando o valete foi cham-lo.
Sabia que o duque estava  sua espera no castelo dele para tomarem o caf juntos enquanto discutiam o pedido de repatriao de trinta mil soldados do Exrcito de
Ocupao feito pelos franceses.
Chegou exatamente dois minutos antes das oito, extremamente elegante em sua farda e em perfeitas condies.
O duque, como era de esperar, desceu do quarto exatamente um minuto antes das oito, e depois de cumprimentar lord Kiniston foram para a sala.
Uma das coisas que o duque apreciava era a conversa confidencial  mesa do caf. Alguns de seus oficiais, aps uma noitada de muita bebida ou companhia feminina,
achavam isso uma terrvel provao.
No havia criados presentes, mas os pratos estavam dispostos sobre o aparador,  moda inglesa.
Lord Kiniston serviu-se de costelas de vitela com molho, feito por um excelente cozinheiro francs.
O duque imediatamente passou a tratar da questo da dispensa dos trinta mil homens. Precisava decidir se era seguro ou no.
Os russos estavam querendo ganhar o apoio dos franceses, e era crucial decidir se o povo francs era ou no leal ao novo regime.
- Isso significa que ter de ir a Londres para discutir o assunto - comentou Kiniston.
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- No fao objeo alguma - retrucou o duque. Na verdade, acho que estou mesmo precisando de um pouco de mudana e gostaria de visitar Cheltenham. A gua de l 
muito eficaz e os mdicos a recomendam.
Olhando para ele, lord Kiniston achou que a mudana lhe faria bem.
Sem dvida a tenso do ano que passara e as interminveis negociaes com o governo francs tinham sido extremamente fatigantes.
Fez-se uma pausa e logo o duque falou:
- Bem, agora vamos falar de outra coisa; de voc, por exemplo, meu rapaz.
Lord Kiniston percebeu o perigo no que o duque iria dizer, por isso falou, apressado:
- Ah, no sei se o senhor ficou sabendo, mas minha tutelada, lady Charis Langley, chegou da Inglaterra ontem  noite.
- Lady Charis Langley? Aquela jovem que fazia tanto sucesso socialmente da ltima vez que estive em Londres, que recebia mais ateno do que eu?
Lord Kiniston riu.
- Isso acho que  impossvel! Por outro lado, a moa a que me refiro  essa mesma. O senhor vai ach-la linda e encantadora.
- J estou ansioso para conhec-la. Mas, sem dvida, lady Charis j deve estar noiva e de casamento marcado a essa altura, no ? Disseram-me que havia uma legio
de apaixonados e admiradores aos ps dela.
- Espero que tenha recusado todos. O pai dela, como o senhor sabe, morreu h um ano e me fez tutor da menina. E eu no tenho inteno de permitir que algum to
atraente e bela se case com um caa-dotes.
O duque lanou um olhar penetrante a lord Kiniston e depois de instantes disse:
- Est me dizendo, meu rapaz, que pretende casar-se com ela?
Foi ento que Kiniston resolveu fazer o que lhe parecia a nica soluo capaz de livr-lo da situao. Ainda hesitou um pouco antes de falar:
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-  claro que por enquanto ainda  segredo, mas...
- Meu caro rapaz, eu nem imaginava! Na verdade, como deve ter percebido, tinha esperanas de que voc se casasse com Elizabeth Caton. Mas, certamente, se voc est
comprometido com a bela lady Charis, ento no posso fazer mais nada!
- , infelizmente no pode - disse Kiniston, sorrindo.
- Deixe-me cumpriment-lo, ento. Sei que Langhaven, que sempre foi um excelente oficial, deixou muito dinheiro para ela. No que isso tenha alguma importncia para
voc.
- Peo que Sua Graa faa a gentileza de no comentar isso com ningum. Estou certo de que posso contar com o senhor.
-  claro, meu rapaz,  claro! Mas devo confessar que fiquei de certa forma decepcionado e que a sra. Patterson, que tanto o admira, vai lamentar no poder t-lo
como cunhado.
- Tenho certeza de que o senhor encontrar algum  altura para Elizabeth Caton.
Mais tarde Kiniston despediu-se e foi embora, pensando que escapara por pouco. Tinha certeza de que o duque iria dizer claramente e de modo irrecusvel que esperava
v-lo casado com Elizabeth Caton.
Nesse caso ou ele teria que concordar ou ento enfrentar uma desagradvel discusso.
Sem dvida fora uma sada inteligente e congratulava-se por isso. Mas, por outro lado, sabia que essa deciso seria um choque para Charis.
Fez um muxoxo, dizendo para si que, por mais bonita que fosse e por mais sucesso que fizesse, ela no teria pretendentes que se igualassem a ele.
Lord Kiniston no era um homem convencido, mas tinha conscincia de que sua famlia e seu ttulo eram antigos e respeitveis. A posio de seu pai na Corte e a de
seu av e bisav davam-lhe privilgios que no eram concedidos a outros homens, mesmo que seus ttulos fossem superiores ao seu na hierarquia aristocrtica.
No era s uma questo de sangue, linhagem e prestgio na Corte, mas, alm disso, ele era extremamente rico.
Seu av casara com uma rica herdeira e sua me levou para o casamento um dote muito superior ao de qualquer outra noiva. Herdara dela vrias casas e muitos acres
de terra no norte da Inglaterra que se valorizavam a cada ano.
Isso, somado s propriedades da famlia de seu pai em Buckinghamshire e em Leicestershire, fazia de lord Kiniston um dos maiores proprietrios de toda a Gr-Bretanha.
Sabia muito bem que isso impressionava Lillian, assim como todas as outras mulheres que o queriam para marido ou amante.
Assim, voltou para o castelo decidido a procurar lady Charis imediatamente e inform-la sobre seu futuro.
Embora o duque lhe houvesse prometido que no comentaria o fato, no podia deixar de temer que ele contasse para a sra. Patterson para explicar por que no se casaria
com Elizabeth.
Tinha certeza de que haviam discutido esse casamento juntos, pois Marianne dissera ao duque que gostaria de t-lo como cunhado.
Lord Kiniston no subestimava a inteligncia de Marianne, mas tinha certeza de que, se ela soubesse de seu noivado com lady Charis, no conseguiria guardar para
si uma notcia to espetacular.
Decidiu que precisava antes de mais nada ficar oficialmente noivo de lady Charis. Depois de alguns meses, se descobrissem que eram completamente incompatveis, poderiam
romper o noivado.
Por essa ocasio, ento, tanto Lillian quanto Elizabeth Caton j teriam desaparecido de sua vida.
Subiu os degraus do castelo, atento aos sentinelas para certificar-se de que estavam irrepreensveis.
Quando entrou no hall de mrmore, olhou para o relgio no topo da escada e viu que ainda eram s nove horas.
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Sabia que Lillian s desceria dali a duas horas e desconfiava que depois da cansativa viagem lady Charis tambm acordaria tarde.
Mesmo assim perguntou ao mordomo.
- Lady Charis j desceu?
- J, sim, senhor, my lord. Tomou caf faz meia hora e agora acho que est na cocheira vendo os cavalos. Lord Kiniston ergueu as sobrancelhas.
- Nesse caso vou encontr-la.
Fez meia-volta, saiu pela porta da frente e encaminhou-se para o estbulo que ficava ao lado da casa.
Ia pensando que era pouco comum uma moa de sociedade levantar-se cedo ou interessar-se por cavalos.
As irms Caton montavam bem porque tinham aprendido desde crianas, mas no se interessavam por cavalos, e Lillian s montava para exibir sua beleza e fazer inveja
s amigas.
Entrando no estbulo, ele viu Alecia numa baia com um de seus mais rebeldes e fogosos garanhes.
Franziu o cenho ao ver isso e disse ao cocheiro que estava no corredor:
- Voc no avisou lady Charis que Hrcules as vezes
 perigoso?
O cocheiro ficou sem graa e disse depressa: "
- Ela insistiu em que Hrcules no lhe faria mal, my lord, e acho que ela tem razo...
Para no assustar o animal, lord Kiniston ficou parado, olhando para a baia pelo vo da cerca.
Alecia estava de costas para ele e seus cabelos loiros eram realados pelo corpo negro do garanho. Ao lado de um animal to grande ela parecia pequena
e frgil. Percebeu ento que ela falava com o cavalo numa voz
suave e acariciante.
Hrcules parecia estar gostando e deixava-se afagar por aquelas mos femininas e delicadas.
- Voc  muito, muito bonito - lord Kiniston ouviu Alecia dizer - e acho que sabe disso. Mas deve ficar orgulhoso e no convencido com isso. E tenha certeza
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de que poder mostrar a todos os outros cavalos como ser um verdadeiro cavalheiro.
Afagou-o de novo e virou-se com um sorriso.
Quando viu que Kiniston a estava observando ficou sem jeito, como se fosse uma colegial pilhada em alguma atitude fora do regulamento.
Saiu da baia, fez uma mesura graciosa para lord Kiniston e disse educadamente:
- Bom-dia, my lord. Estava fazendo amizade com seus magnficos cavalos.
- Estou vendo! Voc os admira?
- Acho que so maravilhosos! Jamais vi animais to belos e espero que me permita mont-los.
- Mas  claro! S no acho que deva comear logo com Hrcules.
Alecia pareceu decepcionada e disse:
- Esperava que me deixasse mont-lo, porque, embora seu cocheiro me dissesse que ele pode ser rebelde, eu sei que ser bonzinho comigo.
- E como sabe disso? - Alecia no respondeu e ele insistiu: - Quero saber por que diz isso.
-  algo que eu sinto. Acontece que prefiro cavalos difceis. No gosto dos bem comportados.
Deu uma risadinha que tinha algo de infantil.
- Estou comeando a entender, lady Charis, por que  que voc deseja montar uma fazenda de criao de cavalos de corrida.
Por instantes Alecia ficou sem entender, depois lembrou-se do que Charis lhe dissera e de como por causa de seu pedido de retirada de uma grande quantia lord Kiniston
ficara sabendo de sua existncia.
Como continuasse calada, lord Kiniston achou que Alecia imaginava que ele se oporia  ideia e disse depressa:
- Que tal cavalgarmos um pouco primeiro e conversarmos depois?
- Eu adoraria!
Enquanto caminhavam de volta para o castelo, ela esperava que a conversa, fosse sobre o que fosse, no se alongasse.
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Trocou-se depressa, colocando o traje de montaria, e, para seu alvio, no encontrou ningum.
J quando descera para o caf notara que nenhum dos outros hspedes estava presente, e os criados informaram-na de que o major Lygon j havia tomado caf e sado
e que lord Kiniston fora tomar caf com o duque.
Por isso comeu sozinha e achou melhor assim. Ficou  vontade para provar dos vrios pratos deliciosos.
Depois das escassas refeies que vinha fazendo em sua casa nos ltimos meses aquelas iguarias todas eram uma festa.
Deliciou-se com os croissants acabados de sair do forno e os morangos silvestres fresquinhos.
Falou com os criados em francs e, quando elogiaram sua fluncia no idioma, pensou que a me se orgulharia dela.
Quando terminou a refeio resolveu, em vez de conhecer os aposentos do castelo no andar trreo, aproveitar a oportunidade de ir at o estbulo.
Tinha certeza de que lord Kiniston devia ter cavalos excelentes. E na verdade eles superaram sua expectativa. Eram bem superiores aos cavalos de seu tio, que costumava
montar antes da morte dele.
Depois da morte do tio, ento, ela e o pai ficaram com apenas dois animais velhos e de segunda categoria.
Quando chegou  porta da frente lord Kiniston j estava montado em Hrcules e  sua espera havia um outro cavalo igualmente belo e impaciente para sair.
Cavalgaram durante uma hora e quase como se a tivesse testando lord Kiniston mantinha marcha rpida.
Galoparam a maior parte do tempo e foi impossvel conversar. S quando voltavam para casa a passo lento  que Alecia falou:
- Foi maravilhoso! Obrigada! Muito obrigada!
- Alegro-me que tenha gostado - retrucou Kiniston.
- Depois que voc se trocar estarei  sua espera em meu gabinete particular.
Alecia no pde deixar de pensar que uma compensao por estar ali no lugar da prima era ter cavalos para montar que pareciam sados de sonhos.
Trocou-se depressa e, quando entrou na sala que lord Kiniston considerava seu santurio, ele estava sentado  escrivaninha.
Assim que entrou, Alecia notou os quadros de pintores franceses e encaminhou-se para eles com uma exclamao de admirao.
- Voc gosta de pintura? - perguntou Kiniston.
- Eu adoro. E mame teria apreciado muito esta sua sala, assim como o resto de seu castelo.
Mal acabou de falar e lembrou-se de que estava se referindo a sua me e no  de Charis.
Para evitar qualquer deslize de sua parte, virou-se para lord Kiniston, dizendo:
- Por favor, espero que a conversa no seja longa. Depois de ter montado um de seus maravilhosos cavalos, que poderiam todos se chamarem Pegasus porque parecem prprios
para deuses e heris gregos montarem, eu gostaria de conhecer seu castelo.
Lord Kiniston sorriu.
- Voc deve dizer isso a eles, como disse a Hrcules, e tenho certeza de que os far orgulhosos e no convencidos.
Para espanto dele, Alecia enrubesceu e virou o rosto com timidez.
- No  melhor nos sentarmos? - sugeriu ele.
- Sim,  claro.
Ela se sentou na beirada do sof que ficava ao lado da lareira e, como era vero, estava cheia de vasos com plantas e flores.
Lord Kiniston continuou em p, de costas para a lareira, e por instantes pareceu estar procurando palavras para dizer:
- Pedi-lhe que viesse  Frana, lady Charis, porque o procurador de seu pai ficou justificadamente surpreso e um tanto perturbado com a quantia de dinheiro que voc
solicitou para investir em criao de cavalos. - Fez uma pausa e, como Alecia no retrucou, ele prosseguiu:
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- Agora que vi seu genuno interesse por cavalos posso entend-la melhor. Mas, por outro lado, voc precisar me convencer de que o dinheiro no ser desperdiado.
- Lanou um olhar penetrante a Alecia ao dizer: Quem lhe sugeriu comear a criao de cavalos? E quem ser seu scio no que se poder tornar um jogo caro?
Essas perguntas tomaram Alecia de surpresa e ela ficou apavorada pensando em como responder.
Charis no a preparara para enfrentar indagaes sobre a criao de cavalos e ela no tinha ideia do que responder.
Por isso ficou calada, e depois de instantes lord Kiniston disse:
- Eu posso supor, e perdoe-me se estiver enganado, que algum homem de quem voc gosta pediu-lhe que o financiasse nesse ambicioso projeto. E eu lhe digo prontamente
que isso  algo que eu, como seu tutor, no posso permitir!
Alecia olhou-o perplexa.
Ficou imaginando se essa recusa em liberar o dinheiro prejudicaria Charis ou se, estando ela j casada, no haveria mais nada que lord Kiniston pudesse fazer.
Ento lembrou-se de que ele lhe fizera uma pergunta e, sem dvida, no era verdade que Harry pedira a Charis para financi-lo, j que ele era to rico quanto ela
e poderia dispor da quantia.
Sentindo que deveria dizer alguma coisa, balbuciou:
- No ... nada do que est pensando...
- Porm, no posso acreditar que uma moa da sua idade pretenda administrar uma fazenda de criao de cavalos.
Alecia resolveu que seria mais prudente no dizer nada e simplesmente baixou o olhar, fazendo os clios escuros e longos sombrearem a pele clara das faces.
Como se o silncio dela incentivasse lord Kiniston a continuar o que estava dizendo, ele prosseguiu:
- Entretanto, tenho uma proposta bem diferente a colocar e espero que me oua com ateno.
- Eu tentarei.
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- Voc deve desconfiar, alis deve saber, que grande parte dos homens que desejam casar com voc no lhe faria essa proposta se no fosse pela sua fortuna. Imagino
que seja muito difcil para uma jovem distinguir entre um homem que esteja verdadeiramente apaixonado e um que, embora a admire, esteja mais interessado em seu dinheiro.
- No acredito que isso seja verdade... Acho que se um homem ama sinceramente  fcil reconhecer isso e, da mesma maneira,  possvel saber se est fingindo...
Estava pensando em Harry Turnbury, ao falar, e como o olhar dele e o tom da voz quando falava com Charis no deixavam sombra de dvida sobre a sinceridade de seu
amor.
- Minha cara jovem - disse Kiniston -, at mulheres bem mais velhas e experientes do que voc foram enganadas. Sem seu pai e sua me para aconselharem-na,  impossvel
que faa um casamento certo.
- Eu acho, my lord - disse Alecia com suavidade -, que amor... o verdadeiro amor, que vem do corao,  algo que no pode ser encenado to bem a ponto de enganar
qualquer pessoa inteligente.
- Isso na sua opinio, mas no na minha! Portanto, pensei e refleti cuidadosamente. E decidi que, para sua prpria segurana, e tenho certeza de que esse era o desejo
de seu pai, voc deve se casar comigo.
Se uma bomba tivesse explodido aos ps de Alecia no teria provocado mais efeito.
Por um momento ela ficou paralisada como se fosse de pedra. Depois, de olhos arregalados, ergueu o olhar para lord Kiniston.
- Disse mesmo que... - gaguejou ela - eu devo me casar com voc?
- Eu sem dvida no sou um caa-dotes - retrucou ele, com um sorriso - e posso lhe oferecer uma posio como minha esposa que seu pai abenoaria.
- Mas... mas eu no amo voc!
Lord Kiniston sorriu de novo antes de responder:
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- Voc vai descobrir, lady Charis, que o amor entre duas pessoas do mundo social ao qual pertencemos vem depois do casamento. Na Frana os casamentos so sempre
arranjados segundo as convenincias de sangue e financeiras dos noivos. Essas ligaes funcionam satisfatoriamente e, como bem sabe, o mesmo acontece entre as famlias
aristocrticas na Inglaterra.
Fez uma pausa antes de prosseguir:
- Por isso eu sugiro que anunciemos nosso noivado, embora certamente no haja pressa de nos casarmos. Teremos tempo para nos conhecermos melhor e termos certeza
de que nos daremos bem, o que estou certo no ser difcil.
- Mas eu no posso me casar com voc! - disse Alecia desesperada.
- Por que no?
-  impossvel! No posso explicar... Mas  claro que esse noivado, essa ideia,  impossvel se acabamos de nos conhecer!
Tentava achar um argumento sensato que convencesse lord Kiniston do absurdo de sua ideia e que deixasse claro que ela no concordaria com isso em hiptese alguma.
Mas, como seu corao batia acelerado e como estava assustada com tal sugesto, sentia a cabea oca e era-lhe impossvel pensar com clareza.
- Imagino que tenha ouvido vrias propostas de casamento e recusou-as todas. Por qu?
Isso era fcil de responder.
- Por que eu no amava os homens que me pediram em casamento.
- O que est querendo dizer, embora no admita,  que sabia que eles estavam mais apaixonados-por sua imensa fortuna do que por voc.  claro que voc  uma mulher
muito bonita!
- Se eu no casei com nenhum deles porque no os amava, ento por que devo me casar com voc?
Lord Kiniston no pde deixar de reconhecer que era um raciocnio lgico e inteligente.
- Pela razo que acabei de expor: estou convencido
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de que voc  um alvo para os caa-dotes e pode acabar deixando-se levar por galanteios e elogios e casandp-se com um homem que se interesse s por seu dinheiro.
- Acho que isso no s  cnico como tambm algo muito indelicado de se dizer - comentou Alecia.
- Mas, infelizmente,  a verdade. O fato  que eu conheo alguns dos homens que, segundo soube, a pediram em casamento. E digo-lhe que, tal como seu pai o faria,
censuro o fato de seu casamento ter se tornado motivo de apostas nos clubes de St. James. Esto apostando para ver qual caa-dotes levar o "prmio de ouro".
- Do jeito como fala faz tudo parecer srdido e horrvel! - protestou Alecia, pensando em Charis e Harry, e no amor que sentiam um pelo outro.
- Estou apenas sendo prtico e objetivo. Portanto, lady Charis, por mais que voc proteste, por mais que discuta comigo, eu pretendo anunciar nosso noivado
imediatamente!
- Mas... voc no pode fazer isso...  impossvel!
- Por qu?
Alecia tentou desesperadamente achar um motivo por que no poderiam ficar noivos, mas a nica coisa que lhe vinha  mente era a verdade: que no era lady Charis
Langley, nem a herdeira nem a pessoa que se tornara motivo de apostas em St. James.
- Est vendo? - disse Kiniston depois de uma prolongada pausa. - Voc no tem motivo real para me recusar, a no ser, como voc mesma disse, que no me ama. Portanto
eu proponho que, se dentro de seis meses voc no estiver definitivamente me amando, ento ns terminaremos o noivado e diremos ao mundo que estvamos enganados.
- Quer dizer que da... eu no vou ter de casar com
voc?
Sentia-se como uma nufraga nessa situao assustadora, nadando contra a correnteza.
- Eu lhe asseguro que sou homem de palavra. Se no fim de seis meses voc pedir para rompermos o noivado que se tornou intolervel, talvez, para ns dois, eu concordarei
e ento poderemos discutir novamente sua ideia de ter uma criao de cavalos.
- Acho que assim est bem... - murmurou Alecia.
Estava pensando em como lord Kiniston ficaria furioso ao saber, muito antes do fim dos seis meses, que ela no era lady Charis e que esta j se havia casado com
outro.
Novamente sentiu-se uma nufraga e tentou agarrarse a uma tbua de salvao.
- Se vamos ficar noivos - disse ela -, ser que poderamos manter isso em segredo para que ningum mais saiba?
Lord Kiniston, por sua vez, estava pensando em Lillian e Elizabeth.
- Isso seria um erro - disse ele com firmeza. - Afinal de contas, Charis, voc est hospedada em minha casa, o que inevitavelmente vai despertar curiosidade e especulao.
Todos sabem que eu nunca hospedo moas solteiras aqui. Na verdade, esta  a primeira vez!
- E o que importa se as pessoas comentarem?
- O que estou planejando fazer  eliminar os caadotes, principalmente o que lhe pediu vinte mil libras para gastar em cavalos que podem no valer o preo, ou talvez
em outros divertimentos que voc nem sabe.
- Como  que voc pode saber que ele far isso? perguntou Alecia revoltada.
- Minha doce menininha, tenho fama de saber julgar bem as pessoas. Na verdade, o prprio duque sempre pede meu conselho. Portanto, conheo muito bem esse tipo.
- Acho que voc tem um modo cnico e distorcido de ver as pessoas. E no  verdade.
- Na sua opinio! - retrucou Kiniston. - Como eu j disse, voc  muito jovem para saber se cuidar sozinha.
Alecia pensou que Charis sabia se cuidar muito bem, e Harry tambm, mas como poderia dizer isso?
Como poderia convencer lord Kiniston de que eles se amavam de verdade?
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Torcia as mos, aflita, e com um sopro de voz falou:
- Por favor... no me obrigue a fazer isso... Deixe que eu fique aqui algumas semanas, depois talvez possamos falar no assunto novamente...
Estava pensando que nesse tempo ele ficaria sabendo
a verdade. Lord Kiniston meneou a cabea.
- No vejo razo para esperarmos e, como sou seu tutor e tenho obrigao de zelar por voc, Charis, pretendo anunciar nosso noivado imediatamente. Sem dvida vai
causar muita sensao, sendo voc quem , mas tenho certeza de que, estando acostumada ao sucesso em Londres, no vai estranhar muito e at vai gostar.
Esperou que ela falasse, mas, como continuou calada, ele prosseguiu:
- Como j prometi, ficaremos noivos por seis meses, depois faremos uma reavaliao de nossa situao. Afinal, o rompimento de um noivado, desde que seja de comum
acordo, no far mal a ningum, nem ser o fim
do mundo.
Ele falava com certa mordacidade, pensando que qualquer outra mulher, principalmente Lillian ou Elizabeth, ficaria extasiada com a ideia de se casar com ele.
Em vez disso, Alecia ficava ali, plida, com olhar assustado e mos trmulas.
- Isso est errado... eu sei que est errado! E voc no tem o direito...
- Tenho todo o direito! - interrompeu Kiniston. E, se nosso noivado vai impedir que receba tantas propostas de casamento, francamente no vai lhe fazer nenhum mal!
Ele falou com desdm.
Alecia respirou fundo e, para seu espanto, ouviu-se
dizendo:
- Acho que voc est se comportando muito mal e, se  dessa maneira que lida com os franceses, agora que os derrotou, ento s posso dizer que tenho pena deles,
muita pena mesmo!
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A voz tremeu com a ltima palavra e, virando-se, ela saiu correndo da sala, deixando lord Kiniston atnito, de olhos arregalados.
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CAPTULO 5
Alecia ficou sentada no quarto contendo-se para no romper em lgrimas.
Sentia-se arrastada num redemoinho que a fazia girar
e girar at no poder pensar.
S tinha conscincia do medo que sentia de dizer ou fazer algo errado e Charis sofrer as consequncias.
No conseguia imaginar o que Charis pensaria quando lesse a respeito do noivado dela com lord Kiniston. Tomara que entendesse que era um subterfgio para ganhar
tempo.
Era tudo to complicado e assustador que Alecia ficou, ali, sentada, o rosto escondido nas mos, toda trmula, at perceber que j era quase hora do almoo e que
ficaria estranho se ela no descesse.
Tinha medo das perguntas que os hspedes do castelo lhe fariam se lord Kiniston j tivesse contado a respeito do noivado. Rezava para que ele ainda no houvesse
dito nada.
Se ao menos ele esperasse um pouco, talvez alguns dias, ela teria tempo de correr para Paris e voltar para
casa.
Ainda no estava bem certa de como faria isso, no conseguia encontrar um meio seguro de escapar daquela
situao desagradvel.
Por fim ajeitou os cabelos e, ao olhar-se no espelho, achou-se plida. Passou um pouco de rouge nas faces, depois desceu lentamente e encaminhou-se para o salo,
onde sabia que lady Lillian e os outros hspedes estariam reunidos.
Para seu alvio Willy estava l e imediatamente foi ao
seu encontro, dizendo:
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- Bom-dia, Afrodite! Deixe-me dizer-lhe que hoje vo c est ainda mais bonita do que ontem!
Sabia que ele estava brincando, usando o apelido pelo qual Charis era conhecida em Londres, e por isso sorriu.
Ao se aproximarem juntos dos outros, lady Lillian disse com certa aspereza:
- Fiquei sabendo, lady Charis, que saiu para cavalgar esta manh! Sendo eu sua anfitri, teria sido corts dizer-me aonde ia.
- Desculpe-me - respondeu Alecia, com humildade -, mas a senhora ainda no tinha levantado e no quis perturb-la.
- No teria perturbado - retrucou lady Lillian, em tom desagradvel. - E eu a teria avisado que arrisca sua reputao de moa solteira cavalgando sozinha, sem uma
acompanhante.
Antes que pudesse defender-se, Willy adiantou-se.
- Francamente, lady Lillian, acho que essas convenes so desnecessrias aqui em Cambrai, e pode estar certa de que, por onde lord Kiniston e lady Charis passaram,
no estavam sozinhos mas sim observados por centenas de olhos curiosos e, certamente, cheios de admirao.
Lady Lillian fulminou-o com um olhar, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, a sra. Belton entrou na sala cumprimentando todos efusivamente e dizendo para
quem quisesse ouvir que noite maravilhosa tivera.
- Que camas confortveis, lady Lillian - elogiou ela.
- Dormir nelas  como flutuar nas nuvens!
- Voc deve cumprimentar o dono do castelo por isso - disse lady Lillian, no momento em que o duque de St. Briere foi anunciado. - Tenho certeza de que ele vai gostar
de saber o quanto aprecia o lar dele.
O duque, muito elegante e diferente dos ingleses, beijou a mo de lady Lillian e disse-lhe algo em voz baixa que a agradou. Depois passou, a cumprimentar uma a uma
todas as mulheres at chegar a Alecia, e ento disse:
- Eu a admiro muito, lady Charis, desde que a vi em
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Londres, num baile na Manso Devonshire. Agora est ainda mais bonita e sinto-me feliz de abrigar em minha casa tal beleza.
Alecia enrubesceu com o galanteio e nesse momento lord Kiniston entrou na sala.
Desejou bom-dia aos hspedes e estendendo a mo ao
duque disse:
- Estou encantado por v-lo, St. Briere. Espero que no ache desconcertante ver tantos estranhos invadindo
seu castelo.
- Ao contrrio - retrucou o duque -, sinto-me muito honrado com sua permanncia aqui. S espero que tenha encontrado tudo a gosto.
- No tenho queixas. - Lord Kiniston sorriu. - E, agora que est por perto, espero contar com o prazer de receb-lo sempre que no tiver outro compromisso.
-  extremamente gentil de sua parte, my lord - disse o duque, retribuindo o sorriso.
Ele parecia falar com sinceridade, mas, observando os dois frente a frente, Alecia subitamente teve a estranha sensao de que o duque na verdade no estava to
satisfeito com seus inquilinos quanto demonstrava.
No sabia por que imaginara uma coisa dessas, porm observando-o bem notava que, enquanto os lbios sorriam, os olhos permaneciam frios.
Entretanto, ningum poderia ter sido mais espirituoso e agradvel do que o duque francs, durante o almoo.
Havia dez pessoas presentes e mesmo assim ele manteve a ateno de todos com suas anedotas e censuras a Napoleo e tudo o que fizera na Frana.
- Um monstro que destruiu nossos jovens rapazes e deixou o pas to empobrecido que ser preciso pelo menos uma gerao para endireit-lo!
- Posso entender seus sentimentos, St. Briere - disse lord Kiniston -, mas, antes que fiquemos sombrios e deprimidos, deixe-me dar-lhes uma boa notcia.
Fez-se silncio e todos olharam para ele na cabeceira da mesa, em expectativa. Ento ele disse:
- Quero que me cumprimentem por eu ser um homem de muita sorte. Hoje consegui persuadir a bela lady Charis a se tornar minha esposa!
Por instantes fez-se silncio de surpresa. Mas logo Alecia percebeu uma expresso de fria nos olhos de lady Lillian.
Willy aproveitou a deixa e, erguendo-se com o clice na mo, fazendo um brinde, disse:
- Bravo, Drogo! Confesso que me pegou de surpresa, mas s posso cumpriment-lo de todo o corao! E a voc, lady Charis, meus melhores votos e que sejam muito felizes
at o fim da vida.
Todos os outros ergueram-se tambm, com exceo de lady Lillian, e brindaram a lord Kiniston e Charis.
Sentindo-se tmida e sem jeito, Alecia continuou sentada, com um sorriso pregado no rosto, esperando no ter que falar muito quando os brindes terminassem.
Ento, quando todos se sentaram novamente, houve um rebulio de vozes, exclamaes de surpresa e perguntas sobre quando seria o casamento.
Para alvio de Alecia, ela ouviu lord Kiniston responder:
- Infelizmente teremos que esperar algum tempo. Charis quer casar-se em Londres e eu no poderei sair daqui antes de alguns meses, principalmente agora que o duque
de Wellington est falando em ir a Cheltenham para descansar e reunir-se com o gabinete para discutir o nmero de tropas que devemos ter no Exrcito de Ocupao.
Isso provocou uma srie inevitvel de argumentos e opinies que Alecia j ouvira antes a respeito da necessidade ou no de um exrcito grande, e se de fato os russos
eram ou no uma ameaa.
Alecia notou que o duque francs quase no participou das discusses que empolgaram o major Belton e um coronel, cuja esposa estava hospedada no castelo.
Ficou imaginando o que ele realmente sentia vendo seu castelo e seu pas ocupados por estrangeiros e se, tendo ajudado os britnicos contra Napoleo, agora se ressentia
da autoridade que tinham em seu pas natal.
Observando-o, reparou que quando ele olhava para lord
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Kiniston suas feies ficavam tensas e, quando o almoo terminou, aproximou-se de lady Lillian flertando com ela de um modo que pareceu ultrajante a Alecia.
Talvez estivesse chocada por no estar acostumada  sofisticao do mundo social. Mas parecia-lhe que lady Lillian incentivava os avanos do duque, provocando-o
de um modo que achava extremamente atrevido e imprprio para uma dama.
Lord Kiniston,  claro, tambm percebera muito bem como Lillian ficara furiosa ao ser anunciado o noivado.
Entendia que, flertando abertamente com o francs, ela estava querendo lhe dizer que havia outros homens no mundo alm dele.
Por outro lado, conhecia-a muito bem e sabia que mais cedo ou mais tarde teria de enfrentar uma cena desagradvel, embora esperasse evit-la.
Para adiar esse episdio, saiu de casa logo em seguida, dizendo que precisava resolver algumas questes no alojamento dos soldados e falar com o duque de Wellington.
Assim que ele saiu, os outros se dispersaram, sumindo da sala tambm.
Alecia tinha certeza de que a sra. Belton fora correndo escrever s amigas da Inglaterra, descrevendo a viagem e sem dvida contando sobre o noivado de lord Kiniston
e lady Charis.
Quando saiu da sala, lady Lillian estava sentada no sof com o duque de St. Briere. Ele segurava a mo dela entre as suas e falavam baixinho, numa atitude de intimidade.
Sem saber bem o que fazer, Alecia foi para uma sala em que vira muitos livros. Passou por um espaoso jardim de inverno com estufa que tinha sido acrescentado quela
ala do castelo.
No havia muitas flores para ver, mas um viveiro com pequenos pssaros, que ela achou interessante e parou para olhar.
Enquanto estava ali, observando, ouviu vozes que vinham de baixo do assoalho e ficou imaginando o que seria.
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Olhando pelo vidro viu dois homens saindo do poro, abaixo do jardim de inverno, e imaginou que estivessem cuidando do aquecimento.
Sabia que as plantas ali precisavam ser mantidas a uma temperatura constante.
Os homens bateram a porta por onde saram e afastaram-se falando um dialeto que Alecia mal conseguia entender.
Ouviu um deles dizer ao outro:
- Ce qui nous manque maintenant est l cosmtique. Sabia que isso significava: "S o que nos falta agora
 l cosmtique", mas no entendia o que queriam dizer com l cosmtique nesse contexto e achou que devia ser alguma expresso de gria que desconhecia.
Ento, encaminhou-se para a sala ao lado onde estavam os livros e, com dificuldade, escolheu alguma coisa para ler.
Quando finalmente encontrou dois livros que gostaria de ler, sentou-se ao lado da janela.
Tinha lido vrias pginas e comeava a se interessar pela trama quando ouviu a porta se abrir e duas pessoas entrarem.
Como no queria ser perturbada, encolheu as pernas sobre a poltrona, esperando que fossem embora sem v-la.
Ento ouviu a voz do duque de St. Briere dizendo em francs para o mordomo:
- Est tudo organizado?
- Oui, monsieur l duc, est tudo exatamente como o senhor pediu.
- Bon Agora quero saber os planos do lord para os prximos dias.
O mordomo hesitou por um momento antes de dizer:
- Hoje  noite h um jantar para alguns convidados. Para amanh ainda no recebi ordens sobre o almoo, mas sei que o duque de Wellington vem jantar.
- Foi o que ouvi tambm. Haver muitos convidados?
- No, monsieur, s uns vinte, eu acho.
- Bon! Merci, Beauvais, por sua ajuda.
-  pela Frana, monsieur!
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O duque no retrucou e Alecia ouviu-o sair da sala com o mordomo.
Quando a porta se fechou ela deu um suspiro de alvio e voltou  leitura.
Lord Kiniston voltou ao castelo por volta de cinco horas.
Foi direto para seu gabinete e tinha comeado a ler os papis que estavam sobre a escrivaninha, quando lady Lillian entrou.
Ergueu-se formalmente para saud-la, mas logo sentou-se dizendo:
- Estou muito ocupado, Lillian, como est vendo.
- Mas no para conversar comigo, Drogo!
- Ser que precisamos conversar? No h nada para nos dizermos.
- Eu tenho muito para lhe dizer, mas no vou censur-lo, como imagina, pela sua crueldade em no me revelar suas intenes antes de anunciar o noivado.
Para surpresa de lord Kiniston, Lillian falava em tom calmo e agradvel, mas, pela expresso dos olhos, ele sabia que ela estava se esforando para controlar-se
e no alterar a voz.
- Fico aliviado com isso e espero, Lillian, que voc seja gentil com minha futura esposa.
- Voc sabe o que sinto em relao a ela, nem preciso dizer. Mas a questo real no  essa, Drogo querido, a questo  como ficamos ns?
- Eu s posso agradecer a voc pela felicidade que me deu e esperar que tenha tato e bom senso para entender que deve ir embora daqui o quanto antes.
Lady Lillian sentou-se numa cadeira, diante da escrivaninha, antes de retrucar:
- No acho que essa soluo seja digna de voc, Drogo! Se pretende se casar, tudo bem. Acho que deve ter um bom motivo para isso, embora eu no creia que essa menininha,
recm-sada da escola, v manter voc interessado por muito tempo. Mas acontece que significamos muito um para o outro. E isso no pode ser esquecido,
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assim, com uma simples notcia de noivado no The Gazette ou uma aliana no dedo de outra mulher.
Lord Kiniston respirou fundo. Depois falou, com a voz fria e austera que aqueles que o desagradavam conheciam to bem:
- Se est sugerindo o que estou pensando, Lillian, s posso lhe dizer que minha resposta  "no"! Definitivamente no! Se vou me casar  para me portar de acordo,
como um cavalheiro.
Lady Lillian jogou a cabea para trs e riu.
- Meu querido Drogo, acha mesmo que vai conseguir levar essa vida puritana por muito tempo? J esqueceu o que podemos sentir juntos? A paixo violenta que nos arrasta
e nos faz esquecer de tudo?
Lord Kiniston olhou os papis sobre a mesa, como se buscasse inspirao antes de dizer:
- Eu acho, Lillian, que essa conversa  de extremo mau gosto! Acabei de anunciar meu noivado, e, embora eu reconhea que isso causou surpresa, voc sabe to bem
quanto eu que h muitos admiradores a sua espera em Londres e em Paris, e que  impossvel voc continuar aqui.
- Por qu? Voc acha que vou contar a verdade sobre ns para essa sua noivinha sem graa? Ela vai saber que voc  um amante ardente e irresistvel!
Ela suavizou a voz propositalmente ao dizer a ltima frase, mas Kiniston estava furioso e disse:
- Lillian, esta conversa no vai chegar a lugar nenhum! Eu gostaria que voc deixasse o castelo amanh ou depois, no mximo.
Lillian semicerrou os olhos, e por instantes ele pensou que ela fosse enfurecer-se.
Ento, cruzando as mos, ela disse:
- Como voc pode ser to cruel, to impiedoso, Drogo? J que no vai casar comigo, eu; me recuso terminantemente a sair de sua vida! - Porm, isso  algo que tem
de acontecer. - Mas por qu? Casamento  uma coisa, amor  outra, como voc bem sabe! Ser que no imagina que vai sentir minha falta quando eu no estiver mais
aqui?
- Eu sobreviverei - disse ele, sarcstico. - Uma coisa  bvia, Lillian, voc no pode continuar aqui, hospedada, ao mesmo tempo que a moa com quem vou me casar.
- Mande-a embora, ento! Mande-a de volta para Londres. Depois voc vai ao encontro dela. Enquanto isso, ns poderemos continuar felizes como ramos antes de ela
chegar.
Lord Kiniston ergueu-se.
- Sinto muito, Lillian. Repito o que j disse, voc deve partir no mximo at quinta-feira.
Lady Lillian ergueu-se tambm e, caminhando lentamente com movimentos sensuais, parou ao lado dele.
- E se eu me recusar a ir? - perguntou com toda suavidade. - O que voc vai fazer?
- Seria lamentvel e causaria muitos mexericos, mas eu levaria lady Charis para Paris, arranjar-lhe-ia uma dama de companhia respeitvel e passaria todo meu tempo
disponvel com ela.
- E no voltaria para c para ficar comigo? Ele meneou a cabea.
- Se imagina que eu faria isso, est muito enganada. Se eu tiver que voltar ficarei com o duque de Wellington, que me hospedaria com prazer.
Falou com calma, sem exaltao, e havia uma tal frieza em sua voz que Lillian entendeu que afinal perdera a batalha.
Foi ento que, num gesto rpido que o pegou desprevenido, ela dependurou-se em seu pescoo, puxando-lhe o rosto para perto do dela.
- Eu amo voc! Ah, Drogo, eu amo voc! - exclamou ela, apertando o corpo contra o dele para que lhe sentisse a quentura.
Mas, antes que conseguisse beij-lo, lord Kiniston retirou os braos dela de volta de seu pescoo e afastou-a de si, com firmeza.
- Comporte-se, Lillian! J lhe disse que agradeo os momentos felizes. No os estrague fazendo uma cena desnecessria e desagradvel para ns dois.
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Por instantes Lillian ficou apenas olhando-o, como um animal selvagem que perdesse a presa.
Depois, sem dizer mais nada, virou-se e saiu da sala, batendo a porta ruidosamente.
Lord Kiniston ficou ainda parado onde estava, depois sentou-se novamente, aliviado.
O momento difcil passara, sem lgrimas e muito drama, afinal, o que sempre acontecia quando terminava um romance.
J era tempo, mesmo, de se casar e poupar-se de passar mais uma vez por esse tipo de situao!
Por outro lado, no podia deixar de ficar apreensivo, temendo que Lillian no o obedecesse e se recusasse a ir embora.
Lady Lillian, por sua vez, sara da sala sentindo uma raiva que lhe contorcia o rosto e dava-lhe a impresso de centenas de facas enterradas em seu peito.
Sempre estivera to confiante de que lord Kiniston acabaria sucumbindo aos seus encantos e se casaria com ela que mal podia crer que ele ficara noivo de outra mulher
e pusera-a fora de sua vida.
- Eu vou mat-lo! - disse para si, ao subir a escada. Ento, antes de chegar a seu quarto, ela viu Alecia saindo do dela.
Alecia tinha subido para se trocar para o ch. Sabia que esse no era um hbito francs, mas, como os ocupantes do castelo eram todos ingleses, isso era de esperar.
Ao ver Alecia, a raiva de lady Lillian explodiu e encaminhando-se rpido para ela foi dizendo:
- Quero falar com voc, lady Charis!
- Pois no - retrucou Alecia.
Pensou que desceriam juntas, mas lady Lillian dirigiu-se a seu quarto e foi dizendo para Alecia, que a seguia:
- Suponho que saiba que, ficando noiva de Drogo, voc o est roubando de mim e que ele est se portando de modo vergonhoso! Sempre acreditei que ele fosse se casar
comigo!
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Alecia arregalou os olhos. Estava assustada com o modo de falar de lady Lillian e com o dio e fria que via nos olhos dela.
- Sinto muito... que esteja aborrecida... - disse depois de alguns instantes.
- Aborrecida? O que voc esperava? - disse Lillian. - Drogo  meu amante desde o comeo do ano! Isso a deixa chocada? Deixa? Pois bem, oua a verdade de uma vez
por todas e encare a realidade, em vez de viver num mundo de contos de fadas, menina! Ele me ama, ele  meu, e voc no tem o direito de tir-lo de mim!
Alecia olhou para ela, imaginando como Charis enfrentaria uma situao dessas e o que diria.
Sabia que, se estivesse apaixonada por lord Kiniston e realmente quisesse casar com ele, teria sido um golpe terrvel ouvir aquelas coisas de uma mulher como Lillian
e teria ficado muito infeliz.
Achava que lady Lillian, embora fosse filha de um duque, no estava sabendo se portar como uma lady.
- Bem, ento, o que pretende fazer? - perguntou Lillian.
- O que espera que eu faa?
-  bvio que, se voc no  uma tola, deve se recusar a casar com ele e mand-lo procurar algum da idade dele, que saiba o que um homem quer de uma mulher.
- Est bem,  claro que falarei com lord Kiniston e perguntarei se ele prefere casar com a senhora, e nesse caso eu naturalmente o deixarei livre.
Achou que tinha encontrado uma resposta inteligente e percebeu que lady Lillian ficou surpresa.
- Por que no volta para o lugar de onde veio? explodiu Lillian. - Por que teve de vir aqui, estragar tudo e convencer Drogo a se casar com voc, quando ele jurou
que jamais se casaria? Que poder voc tem sobre ele? Ser que o est chantageando?
Ela praticamente cuspia as palavras e Alecia recuou um passo, temendo ser agredida fisicamente.
- Sinto muito, lady Lillian, mas acho que no posso
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ajud-la. A senhora deve falar com lord Kiniston. Eu farei o que ele me disser para fazer.
Dizendo isso, virou-se, abriu a porta do quarto e saiu para o corredor.
Ouviu ainda lady Lillian dizer alguma coisa que no entendeu.
S o que queria era fugir dali, ir para longe daquela mulher imoral e m, e no ter nenhum envolvimento com ela.
Como estava assustada, embora tivesse mantido a calma e o bom senso, desceu a escada correndo.
Atravessou o hall, e, antes de chegar  porta do salo, deu de encontro com lord Kiniston.
Ele a segurou para que no perdesse o equilbrio e, ento, quando se olharam, ele viu a expresso em seus olhos e entendeu que algo a perturbara.
- O que aconteceu? Qual  o problema?
Alecia estava to sem flego que no pde responder de imediato. Lord Kiniston segurou a mo dela entre as suas e conduziu-a de volta para o hall.
Ela no protestou, apenas deixou-se levar. Estava com medo e chocada com a atitude de lady Lillian.
Ainda segurando a mo dela, lord Kiniston a fez sentar-se no sof e sentou-se a seu lado.
- Agora, diga-me, o que aconteceu para deixar voc assim? - perguntou com suavidade. - Ser que por acaso lady Lillian a aborreceu?
Incapaz de falar, ela apenas fez que sim com a cabea.
- Sinto muito por isso. Ela estava muito brava comigo quando saiu do meu gabinete, h alguns minutos, e acho que voc foi a primeira pessoa que encontrou para descarregar
a raiva.
- Lady Lillian... quer que voc se case com ela conseguiu dizer Alicia, num fio de voz.
- Eu sei disso, mas no tenho a menor inteno de me casar com lady Lillian, ou qualquer outra mulher que no seja voc.
Ele largou a mo dela e Alecia cruzou as suas, dizendo ainda com voz assustada:
- Ela disse que  mais... certa para voc do que eu e... acho que tem razo.
Passou-lhe pela mente que, na verdade, lady Lillian era mais indicada para casar com lord Kiniston do que Charis.
Sua prima, tal como ela, queria o amor romntico como o que fez a me e o pai de Alecia fugirem juntos.
- No sei se vou conseguir lhe explicar - disse lord Kiniston, com uma voz calma e suave que o tornava bem menos assustador do que era.
- Explicar o qu?
- As diferentes mulheres na vida de um homem. Alecia olhou-o, interessada, mas logo desviou o olhar,
com timidez.
- A primeira mulher que um homem ama , sem dvida, a me, e, se ela  uma boa me, inspira nele o desejo de encontrar para esposa algum semelhante a ela, que seja
no s gentil, meiga e compreensiva, mas tambm seu guia e inspirao, fazendo vir  tona o que de melhor h nele.
Aquilo soou-lhe como a descrio de sua me, por isso Alecia olhou para ele de novo.
- Entendo...
- Depois, quando ele fica mais velho - prosseguiu lord Kiniston -, existem mulheres que entram em sua vida, que ele admira pela beleza e acha-as agradveis. Mas
elas so apenas episdios passageiros, e ele no tem a menor inteno de viver com alguma delas permanentemente.
Alecia virou o rosto, desviando o olhar, e, sentindo que ela estava chocada com o que ouvia, ele prosseguiu com muita suavidade:
- Essas mulheres so como flores, bonitas quando desabrocham, mas que quando morrem so jogadas fora por no serem mais atraentes.
- Pode ser que elas no queiram ser jogadas fora...
- Isso, sem dvida,  inevitvel em alguns casos. Por outro lado, quando uma mulher  mais velha, e talvez viva, no h motivo para que no desfrute de um romance
passageiro. Mas a regra bsica  que nenhum dos dois deseje perpetuar o relacionamento que s deve durar algumas semanas ou uns poucos meses.
- Mas... isso no  errado?
- Na realidade, no. A vida  curta e, se a pessoa consegue encontrar a felicidade, mesmo que seja por pouco tempo, deve agradecer. Homens e mulheres foram criados
para se atrair mutuamente, mas eles tm tambm outros interesses e objetivos alm de fazer amor.
Fez-se silncio, que Alecia quebrou, dizendo:
- Estou tentando entender...
Ela o fitava com um olhar interrogativo e ele falou:
- Alm da me e das mulheres que lhe do prazer, um homem est sempre procurando a mulher que ele quer para esposa e me de seus filhos. Quando ainda  jovem e idealista,
ele tem certeza de que ir encontr-la e, embora se decepcione com frequncia, ele continua procurando.
- E quando ele a encontra?
- Ento eles se casam e, como nos contos de fadas, vivem felizes para sempre!
Agora havia um certo tom de cinismo na voz de Kiniston que Alecia no notou.
- Acho que entendi... - disse ela. - Mas lady Lillian o ama e creio que ser mais feliz se casar com ela...
- Voc acha isso, mesmo? Acha que ela  o tipo ideal para ser a me do filho que ser minha continuao?
Alecia vislumbrou lady Lillian falando com raiva e agressividade, como fizera h pouco; depois flertando com o duque de St. Briere.
No conseguiu imagin-la com uma criana nos braos dando-lhe o carinho que lord Kiniston recebera da me dele, e ela da sua.
- Acho que entendi, e obrigada por explicar-me.
- O que eu quero  que no se aborrea por causa de lady Lillian. Espero que ela v embora amanh ou depois.
- Eu acho que ela vai querer ficar para o jantar que voc est oferecendo ao duque de Wellington.
- Como voc sabe disso?
- Eu ouvi o mordomo contando para o duque de St. Briere sobre esse jantar.
Lord Kimiston franziu a testa, como se reprovasse a atitude do mordomo, depois disse:
- Empregados sempre falam demais e no h como impedi-los. Bem, agora, Charis, acho melhor irmos tomar nosso ch, como bons ingleses.
- Confesso que sentiria falta, se no houvesse ch aqui.
- Vamos l, ento, juntar-nos ao mexerico geral da hora do ch!
O modo como ele falou fez Alecia rir.
Enquanto iam para o salo, ela pensou que no deixava de ser estranha aquela conversa com o homem que acabara de anunciar o noivado deles sem lhe pedir aprovao
e que, at esse momento, parecera-lhe to assustador.
Concluiu que ele sabia ser bom e agradvel quando queria.
Quando entraram no salo, Alecia instintivamente chegou mais perto dele, como se precisasse de proteo.
Lord Kiniston pareceu entender.
- Est tudo bem - disse ele com suavidade. - Eu vou tomar conta de voc e garanto-lhe que no h o que temer. Essas pessoas apenas tm inveja por no serem to bonitas
quanto voc, ou to ricas quanto eu!
Ele falou em tom de brincadeira e ela riu.
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CAPITULO 6
Havia doze pessoas para almoar e o duque de St. Briere era uma delas.
Novamente ele estava fazendo a corte a Lillian, que parecia ter se recuperado da raiva. Ela falava com lord Kiniston em tom suave e doce, procurando no demonstrar
rancor, mas Alecia sabia que ela estava flertando com o duque s para tentar deix-lo com cimes.
Alecia deu graas a Deus por estar sentada ao lado de Willy, que a entretinha com agradvel conversa, falando sobre as dificuldades que os franceses estavam criando
para o Exrcito de Ocupao.
Ele estava convencido de que s o tato do duque de Wellington conseguiria manter tudo sob controle, sem que os nimos se exaltassem. Ele, evidentemente, era um ardoroso
admirador do duque.
Quando o almoo terminou, o grupo se dispersou.
A sra. Belton e duas outras inglesas disseram que iam fazer compras e convidaram Alecia para ir junto.
Alecia recusou. Sabia que todo o dinheiro que tinha, e que no era muito, seria necessrio quando precisasse voltar para casa.
Charis lhe dera quinze libras para a viagem, achando que seria o bastante para dar gorjetas e para miudezas.
A passagem fora paga por lord Kiniston e providenciada pelo sr. Hunt.
Alecia tinha certeza de que no havia passagem de volta e ficou calculando quanto precisaria para pagar uma carruagem que a levasse at Calais, comprar a passagem
de navio para atravessar o canal e fazer o percurso de carruagem na outra margem. Era difcil saber exatamente quanto seria necessrio,
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e achou que seria um erro perguntar e levantar suspeitas de que estivesse pensando em voltar para a Inglaterra.
Portanto, a ltima coisa que devia fazer era desperdiar dinheiro com utilidades.
A sra. Belton j falara com entusiasmo sobre a qualidade e beleza das fitas e rendas da Frana, mas Alecia repetia-se que precisava ser firme e ter fora de vontade.
Alm do mais, tinha j as belas roupas que Charis lhe
dera.
Quando as mulheres subiram para colocar seus chapus e os homens desapareceram na direo do alojamento de soldados, Alecia foi para o salo com um livro cuja leitura
estava em meio.
Tinha notado que, perto de uma das portas que davam para o jardim, havia um lugar agradvel, na sombra, entre as flores, onde poderia sentar-se e ler
tranquilamente.
Era um lugar romntico, bonito e perfumado de flores.
Como no tinha onde se sentar, voltou ao salo, pegou uma das almofadas de uma poltrona, levou-a e colocou-a no cho, de modo que pudesse se sentar apoiando as costas
na parede do castelo.
Era assim que costumava fazer para ler em sua casa.
Ali ainda podia apreciar a beleza daquele jardim que sabia ter sido criado em imitao ao belo jardim de Vaux l Vicomte que ficava fora de Paris.
O que mais queria era conhecer a famosa capital sobre a qual lera tanta coisa e cuja histria sempre a
encantara.
Lembrou-se de que, durante o almoo, algum comentara com o duque de St. Briere a deciso dos franceses de comemorar a Queda da Bastilha todo dia 14 de julho.
- Certamente - disse lady Lillian, ento. - Se h uma coisa que voc e muitos franceses sensatos desejam  esquecer a Revoluo!
- Sem dvida,  algo que no desejo rememorar respondeu o duque. - Por outro lado, os franceses adoram comemoraes e todos os pases tm seus dias especiais quando
relembram episdios importantes de sua histria.
- Isso  verdade! - concordou Louisa Caton, que estava em companhia do noivo, o coronel Felton-Hervey.
- Ns comemoramos o 4 de Julho, dia em que conquistamos nossa independncia dos ingleses!
- Acho que devamos ter um dia de luto para lembrarmos como perdemos a Amrica - disse o coronel Felton-Hervey; depois acrescentou, galanteador: - Mas eu estou fazendo
o possvel para conseguir de volta um pedacinho dela!
Louisa fez beicinho para ele, com graa, e lord Kiniston comentou:
- Ns temos o dia de St. George no qual comemoramos a grandeza da Inglaterra, e talvez no futuro dediquemos um dia  Batalha de Waterloo.
Houve um ligeiro murmrio de aprovao por parte dos ingleses presentes, do qual Alecia percebeu que o duque francs no participou.
Querendo desviar as atenes da derrota sofrida pelo pas dele, ele falou:
- No devemos esquecer o dia de Guy Fawkes, em
5 de novembro, quando desmascararam o compl e salvaram o Parlamento.
-  verdade - concordou Kiniston -, mas eu acho que Guy Fawkes  lembrado pelo modo original que escolheu de silenciar o Parlamento, que falava demais, na poca
e agora!
Todos riram e a conversa passou a versar em torno de poltica.
Houve um debate sobre quem era o poltico mais eloquente em Westminster, e se lord Kiniston, quando voltasse para a Inglaterra, iria falar continuamente na Cmara
dos Lordes.
Alecia no pde deixar de pensar que ele certamente faria bons discursos. Achou que tinha um raciocnio preciso, objetivo e brilhante. Sempre apresentava um novo
ngulo em todas as discusses e as opinies dele pareciam-lhe mais sensatas e convincentes.
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Sem dvida, era fcil entender, agora, por que tivera tanto sucesso em sua carreira. Sem querer, imaginou de repente se ficaria muito bravo quando descobrisse a
verdade a seu respeito.
Estava mergulhada em seus pensamentos quando ouviu vozes pela janela aberta, logo acima de sua cabea, e reconheceu a voz do duque de St. Briere falando:
- Eu queria me despedir de voc longe dos outros...
- disse ele.
- Voc vai embora?
- S por uns dias - retrucou ele, consolando. - Mas eu preciso ir a Paris ver minha me que no est passando bem.
- Sinto muito por isso, mas vou sentir sua falta.
-  verdade mesmo? Eu nem preciso dizer o quanto vou sentir falta de sua beleza e da doura de sua
voz.
- vou ficar contando os dias at sua volta - disse
lady Lillian com suavidade.
- E voc sabe que estarei fazendo o mesmo. Mas, antes de partir, eu gostaria de lhe pedir um favor.
- O que ?
- No jantar desta noite, ao qual infelizmente no poderei estar presente, providenciei um presente especial para as trs pessoas que mais admiro.
- Que emocionante! - exclamou Lillian.
- Espero que ache, mesmo - disse o duque -, e quero que me prometa que, embora eu no esteja aqui para ver o que acontece, vai levar o duque de Wellington e lord
Kiniston ao jardim de inverno exatamente s quinze para as dez horas.
- E o que vai acontecer quando chegarmos l?
- Ser algo especial para comemorar a brilhante liderana do duque, em Waterloo, e de lord Kiniston tambm. E para voc, divina dama, algo que a far lembrar-se
de mim.
- Como eu poderia esquec-lo? Mas estou morta de
curiosidade. Conte-me o que .
- No, no, isso estragaria tudo. Tem que ser uma
surpresa. Mas vou lhe dar uma pista dizendo que seu presente brilha. Lady Lillian deu um gritinho de entusiasmo.
- Ah, Flavian, est querendo dizer... Ser que voc vai me dar aquele colar que achei lindo?
- Isso voc vai descobrir na hora - disse ele, misterioso. - Mas no gostaria de decepcion-la. No esquea sua promessa.
- Acha que eu faria uma tolice dessas? Levarei o duque e Drogo ao jardim de inverno exatamente s quinze para as dez e os outros iro tambm.
- Por que no? Sero bem-vindos.
- Voc precisa mesmo ir? No pode esperar at amanh?
- Minha me est a minha espera. Enquanto isso, peo encarecidamente  mulher mais bela que j conheci que se cuide at minha volta e que no me esquea.
- Como pode imaginar que eu o esqueceria? - disse lady Lillian.
Fez-se silncio e Alecia julgou que estivessem se beijando, por mais incrvel que parecesse. Depois ele disse, com voz aveludada:
- Voc me embriaga com sua beleza. Estarei pensando em voc durante toda a viagem at Paris.
- E eu em voc - retrucou Lillian.
O duque talvez tivesse olhado para o relgio, pois disse:
- Ah, eu preciso ir! Meus cavalos esto  espera.
- vou at l, ver voc partir.
Pelo rudo Alecia deduziu que estavam se encaminhando para a porta.
Quando ouviu a porta fechar-se, suspirou aliviada, e s ento percebeu que estivera contendo a respirao, em suspense.
Como seria possvel que, depois de todo aquele escndalo que lady Lillian fizera dizendo o quanto amava lord Kiniston, ela se portasse daquela maneira com o duque
de St. Briere?
E, o pior, ela estava aceitando dele um presente que naturalmente seria caro!
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Alecia fora ensinada que uma mulher s pode receber de um homem, a menos que seja noiva ou esposa dele, presentes triviais como leques, um par de luvas ou no mximo
um vidro de perfume.
Um colar que brilhava s podia ser de diamantes, e estava perplexa de lady Lillian aceitar algo to valioso de um homem que, mesmo sendo um aristocrata, era, devido
a sua nacionalidade, um inimigo da Gr-Bretanha.
Era muito desagradvel e, sem dvida, parecia estranho que o duque desejasse dar presentes tambm ao duque de Wellington e a lord Kiniston.
S se fossem placas comemorativas ou qualquer coisa
desse tipo.
Por outro lado, parecia estranho que ele quisesse fazer isso, mesmo que, segundo dissera lord Kiniston, tivesse colaborado com os ingleses.
Havia algo nele que desagradava Alecia. Depois ela disse para si que devia estar julgando-o mal e que, se o duque de Wellington e lord Kiniston o haviam aceitado,
quem era ela para encontrar faltas?
Abriu o livro, mas no conseguiu se concentrar na leitura, preocupada que estava com as coisas que aconteciam a sua volta.
Se no estivesse to agitada e nervosa de estar representando o papel de Charis, ela teria gostado de estar no centro das coisas em Cambrai.
Qualquer um na Inglaterra ficaria deslumbrado e eufrico de poder conhecer e estar em contato com heri do momento, e ela sabia que isso era algo de que iria lembrar-se
para o resto da vida.
Devia aproveitar cada minuto, porque tinha conscincia de que, quando lord Kiniston descobrisse que Charis se casara e que ela era uma farsante, seria mandada de
volta para casa, em desgraa, e duvidava que algum voltasse a falar com ela!
Sabia tambm que, por ouvir as conversas  mesa do jantar, era privilegiada como poucos na Inglaterra de saber o que estava acontecendo em Paris.
Tentou entender as complexidades da Aliana Qudrupla, que fora proposta pelo visconde Castleragh e que envolvia a existncia de uma conferncia permanente de quatro
embaixadores em Paris, durante a Ocupao, para ficar de olho na Frana e detectar qualquer sinal de esprito revolucionrio.
Alecia achava que, pelo nmero de soldados em Cambrai, havia ingleses suficientes para evitar um levante revolucionrio.
Tinha certeza tambm de que a mdia de camponeses franceses estava farta da guerra.
Depois concluiu que ela no estava em condies de julgar e, por ser tmida, no gostava de fazer muitas perguntas.
Ocorreu-lhe que, se pudesse falar sobre isso a ss com lord Kiniston, seria muito bom e interessante; algo mais de que se lembrar.
Quando estavam cavalgando era impossvel uma conversa contnua, e em outras ocasies havia sempre outras pessoas por perto, principalmente lady Lillian.
Pensando bem, conclua que no gostava de lady Lillian nem um pouco, e que de fato era uma mulher m e imoral.
Havia algo nela que era repulsivo, apesar de toda sua beleza. Alecia tentou imaginar o que lord Kiniston realmente sentia por lady Lillian e se, embora dissesse
no querer casar com ela, preferiria ficar solteiro e divertir-se com as mulheres que ele descrevera como "flores" que podiam ser jogadas fora quando murchavam.
Lady Lillian no parecia nada "murcha". Mas, por outro lado, como podia ter duas caras, a ponto de declarar amor a um homem e depois flertar desavergonhadamente
e receber presentes de outro?
Alecia sentia-se perdida e inexperiente em meio a isso tudo.
Lord Kiniston dissera que cuidaria dela e que no havia nada a temer, mas, mesmo assim, tinha medo de lady Lillian.
Tinha medo do prprio lord Kiniston e das vrias pessoas que entravam e saam do castelo.
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Sentiu uma sbita saudade e vontade de estar em casa, onde, apesar de se sentir sozinha, tinha a paz e segurana dos bosques.
L ela sentia a vida pulsando em tudo, trazendo msica para seu corao.
Era uma sensao de felicidade diferente da que sentia quando estava rodeada de pessoas que conversavam
e riam.
Ocorreu-lhe que seria maravilhoso se encontrasse um homem com quem pudesse partilhar seu amor pelo campo e pelos animais que sempre significaram tanto em sua
vida.
Ento, de repente, veio-lhe  mente o rosto de lord Kiniston com toda nitidez.
Achou um absurdo o que estava pensando, por isso cobriu o rosto com as mos e tratou de repudiar o que seu corao estava lhe dizendo.
Muito tempo depois Alecia ouviu a voz da sra. Belton conversando animadamente, no salo, e percebeu que as mulheres tinham voltado das compras.
- O que mais quero agora - disse a sra. Belton -,  uma xcara de ch. No posso entender por que os franceses preferem caf, quando o ch me parece to
revigorante!
- Concordo com voc - disse outra senhora, em
ingls.
Era o tipo de coisa que Alecia j as ouvira dizer antes e, achando absurdo ficar sentada l fora ouvindo o que diziam, decidiu entrar e juntar-se a elas.
Ergueu-se, percebendo que no lera uma nica pgina do livro que esquecera em seu colo. Ficara pensando em coisas que desejava esquecer, mas sabia ser impossvel.
Levando o livro e a almofada em que se sentara, entrou na sala e a sra. Belton deu um gritinho de entusiasmo ao v-la.
- Ah, a est lady Charis! Como gostaria que tivesse ido conosco! Encontramos coisas lindas e to baratas!
- Acho que os franceses do graas a Deus por terem o que vender, depois dessa guerra em que "o monstro", como diz o duque de St. Briere, sacrificou tudo para fabricar
armas e munies - disse uma das senhoras.
-  verdade - concordou a sra. Belton. - Por outro lado, ns tambm nos beneficiamos comprando a preos to baixos. E os donos das lojas parecem contentes quando
nos vem.
- O que ser que os franceses sentem de fato por ns?
- perguntou uma outra inglesa.
A sra. Belton riu.
-  melhor nem saber. Por mim, desde que eles sejam educados e no queiram mais matar meu marido, estou contente por estar na Frana e no vejo a hora de conhecer
Paris.
- Eu tambm! - disseram as outras, em coro. Depois a conversa girou em torno das diverses de Paris
que todas gostariam de conhecer.
- Por acaso vocs sabem - disse a sra. Belton, com ar de quem tem uma novidade - que o duque de Wellington est planejando um grande baile para junho, antes de ele
partir para a Inglaterra?
Houve um alvoroo entre elas, que responderam:
- No, ningum nos disse.
- Vai ser na Manso dos Champs Elyses, em homenagem  princesa real.
- Que emocionante! - exclamou uma delas. - Ser que ns iremos?
- Meu marido acha que ns seremos convidados retrucou a sra. Belton. - Vocs sabem que o duque gosta que "seus rapazes", como ele os chama, participem de tudo o
que faz.
- Por que no nos contou antes? - disse uma delas. - Sabe que teremos de providenciar vestidos novos.
-  verdade - concordou a sra. Belton. -Mas, por mais que nos esmeremos, lady Charis vai ser a "Bela do Baile" e no adianta tentarmos competir com ela.
Sorriu amigavelmente para Alecia, que ficou sem jeito. Ento a porta se abriu e os criados entraram com o ch.
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- Mas no digam nada a ningum! - pediu a sra. Belton, em tom conspirador. - O baile  um segredo, at que o duque nos diga pessoalmente.
-  claro, seremos muito discretas.
Quando subiram para se trocar para o jantar, Alecia pensou que muito provavelmente no estaria presente ao baile em Paris, j que a essa altura Charis estaria casada.
Imaginava que a prima a avisaria de que a farsa estava terminada e que ela podia voltar a ser Alecia e ir embora para a Inglaterra.
Mas, enquanto tomava banho, descobriu que no queria voltar  Inglaterra com tanta pressa quanto tinha logo ao chegar.
O que queria era ficar mais tempo com lord Kiniston, ouvi-lo falar e desfrutar da empolgante e estranha vida que conhecera ali e que era diferente de tudo o que
conhecia antes.
Concluiu que era uma moa de sorte. Quem mais poderia ter essa chance, depois de levar uma vida to pacata e insignificante em Little Langley, sem ningum para conversar
a no ser o pai, que no a ouvia, e a velha Bessie, que s pensava em comida?
Alegrou-se ao pensar que quando voltasse o pai poderia passar um longo perodo bem alimentado com o dinheiro que Charis lhes dera.
Ento, inevitavelmente, pensou nos pratos deliciosos que estava saboreando no castelo e que eram preparados por um cozinheiro francs que, na opinio de lord Kiniston,
era melhor do que o contratado pelo duque de Wellington.
- Voc precisa garantir - disse Willy - que Alfonse se esmere ao mximo esta noite, para dar inveja ao duque de Wellington. - O problema  que - retrucou lord Kiniston
-, como a sra. Patterson vem com ele, acho que ele no estar muito interessado na comida!
Todos riram e Willy falou:
- Eu no teria tanta certeza. Afinal, o fato de admirar a sra. Patterson s prova o bom gosto dele. E, segundo os franceses, comer  uma arte.
Todos riram novamente.
Quando terminou seu banho, Sarah ajudou-a a colocar um dos belos vestidos que Charis lhe dera e que ainda no usara.
Era de um rosa-queimado, enfeitado na barra e nas mangas com pequenas rosas e fitas prateadas que cruzavam sobre os seios e caam soltas nas costas.
- A senhora est linda, my lady, realmente! - exclamara Sarah. - E eu consegui arranjar com o jardineiro algumas rosas para pr em seus cabelos.
- Foi muita gentileza sua, Sarah - agradeceu Alecia. - Voc est aprendendo a falar francs?
- Uma ou duas palavras, my lady, mas j percebi que os franceses s querem falar sobre l'amour.
Alecia riu.
- Voc devia ouvir os galanteios deles, Sarah! Ser uma boa recordao quando voltarmos, pois os ingleses no dizem metade das coisas bonitas que eles dizem!
- Isso  verdade, my lady, mas eu prefiro meu namorado ingls.
Alecia desceu a escada pensando nos galanteios efusivos do duque de St. Briere, que pareciam sinceros.
Sabia que no era assim que gostaria de ouvir falar o homem que amasse.
Ao entrar no salo percebeu que, como o duque de Wellington estaria presente ao jantar, todas as mulheres estavam usando suas melhores roupas e lady Lillian parecia
uma rvore de Natal em seu vestido cintilante.
Usava tambm um lindo colar de esmeralda, pulseiras combinando e uma tiara nos cabelos escuros com as mesmas pedras.
Estava espetacular, mas havia algo nela que fazia Alecia se lembrar das bruxas de contos de fadas.
Repreendeu-se intimamente por sua avaliao nada caridosa, porm a expresso que viu no olhar de lady Lillian confirmou-lhe o quanto era odiada por ela.
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A animosidade que emanava dela era to intensa que instintivamente Alecia procurou o outro extremo da sala para evit-la.
Logo o duque de Wellington chegou e ao conhec-lo Alecia certificou-se de que ele realmente possua uma aura de magia e liderana.
Era o que sempre imaginara encontrar num grande homem.
Sabia que, mesmo que fosse cega e o duque tivesse entrado na sala, perceberia que era ele.
Lord Kiniston apresentou-a e o duque disse:
- Agora que a estou vendo, lady Charis, posso entender como tantos jovens se curvaram diante de sua beleza. E voc me roubou meu mais indispensvel general.
- No  minha inteno fazer isso, my lordl - conseguiu Alecia retrucar.
- At voc aparecer na vida de Drogo - disse o duque -, eu acreditava que ele fosse um soldado convicto. Agora, desconfio que ele esteja olhando para outra direo...
e tenho a impresso de que  onde voc est.
Falava de um modo cheio de humor que no tornava o elogio embaraoso, nem fazia Alecia sentir-se tmida. Ela sorriu e respondeu:
- Ainda mal posso acreditar que estou tendo o privilgio de conhecer Sua Graa.
- E espero que este seja o primeiro de muitos encontros - disse o duque, galante.
Ele se virou para falar com mais algum e Alecia notou que lord Kiniston gostara do modo como ela se portara.
Teve vontade de dar a mo para ele e dizer-lhe o quanto temera decepcion-lo e no ser aprovada pelo duque.
Lembrou-se, ento, de que ningum ficaria mais horrorizado do que o duque de Wellington quando soubesse da verdade.
Abalada por essa nova onda de temor, ela nem percebeu que lord Kiniston estava observando a expresso de seus olhos.
- O que a est preocupando? - disse ele, de modo
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que ningum mais escutasse. - Quero que se divirta, Charis. Esta  uma noite muito especial.
- Eu sei, e  muito emocionante conhecer o duque.
- Ento no fique to preocupada. Posso lhe garantir que ele  um grande admirador seu.
Alecia forou um sorriso. Ento, outros convidados comearam a chegar e, depois de todos terem sido apresentados e tomado uma taa de champanhe, o jantar foi anunciado.
Como lady Lillian ainda estava em seu papel de anfitri, o duque foi colocado  sua direita, e Alecia do outro lado dele.
Logo ficou claro que lady Lillian no tinha a menor inteno de deixar Alecia falar com o duque, se pudesse evitar isso. Portanto, monopolizou-o com uma habilidade
que era fruto da experincia de muitos anos encantando homens com sua beleza e espirituosidade.
Alecia desistiu de tentar conversar com o duque, como gostaria, e contentou-se em tagarelar com Willy, que estava a seu lado tambm.
De seu lugar, ela podia ainda observar lord Kiniston  cabeceira da mesa, ao lado da atraente sra. Patterson.
As outras duas irms tambm estavam presentes ao jantar e Alecia pde entender por que eram chamadas de "As Trs Graas". Era notrio que tanto o duque quanto o
coronel Felton-Hervey achavam-nas irresistveis.
Quando as damas se separaram dos cavalheiros no fim da refeio, Alecia teve a impresso de que lady Lillian seria agressiva com ela, por isso, para evitar qualquer
contato, resolveu recolher-se a seus aposentos.
Talvez estivesse exagerando, mas, por outro lado, sabia que seria embaraoso se lady Lillian resolvesse exibir sua antipatia pela noiva de lord Kiniston diante das
irms Caton e outros convidados.
A sra. Patterson j lhe dera os parabns e tambm Louisa, que estava noiva do coronel Felton-Hervey.
Elizabeth, por sua vez, foi fria e distante e ocorreu a Alecia que talvez ela quisesse se casar com lord Kiniston e ficara frustrada por no ter sido escolhida.
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Era apenas uma ideia, mas Alecia achou que seria constrangedor ficar sozinha com as mulheres, no salo, at que os homens voltassem.
Por isso foi para seu quarto, ajeitou os cabelos, empoou o nariz levemente como Charis lhe ensinara, e aproximou-se da janela para olhar o jardim.
J estava quase escuro, mas ainda havia restos de dourado e rubro sumindo devagar por trs das rvores altas.
O pr-do-sol estava muito lindo e Alecia pensou que, em vez de ficar conversando no salo, teria preferido passear no jardim, ao lado talvez de algum, para apreciar
a beleza.
Da janela viu de repente um movimento na outra extremidade do castelo e perguntou-se o que seria.
Ento, viu dois homens aproximando-se do jardim de inverno e lembrou-se de t-los visto, na vspera, tendo imaginado que estavam regulando os aquecedores.
Os homens desapareceram e depois surgiu um outro, encaminhando-se para o mesmo lugar.
Usava uma capa escura e parecia diferente dos outros dois, que eram evidentemente trabalhadores.
Andava apressado e Alecia achou que havia algo de familiar nele. Notou, ento, que se parecia com o duque de St. Briere, o mesmo porte, a mesma altura. Mas isso
no podia ser possvel; devia estar imaginando coisas! Talvez todos os franceses se parecessem.
A essa hora o duque estava a caminho de Paris para visitar a me doente.
O homem de capa desapareceu no poro do jardim de inverno com os outros.
Poucos minutos depois, estava olhando o cu  procura da primeira estrela da noite, quando percebeu que os homens estavam indo embora.
O homem de capa saiu primeiro e agora andava mais apressado ainda do que antes. Na verdade, parecia estar correndo, e havia algo de furtivo na sua atitude.
Os dois empregados no mostravam tanta pressa, mas agora estavam de mos vazias, sendo que antes carregavam algo pesado.
Alecia desejou que no estivesse quente e abafado no jardim de inverno, pois, se o duque de Wellington e lord Kiniston iriam receber presentes l, provavelmente
fariam discursos de agradecimento.
 Ento, percebeu que devia descer, pois logo seria a hora marcada pelo duque de St. Briere para estarem no jardim de inverno.
De fato, quando desceu, os homens estavam se encaminhando novamente para o salo e foram recebidos por lady Lillian, que disse:
- Antes que se sentem, cavalheiros, tenho uma pequena surpresa do duque de St. Briere para lord Kiniston e nosso convidado de honra, l no jardim de inverno.
- Uma surpresa! - exclamou lord Kiniston. - O que ?
- Voc ver quando chegar l - retrucou lady Lillian. - E eu prometi que estaramos no jardim de inverno exatamente s quinze para as dez horas.
- Isso parece curioso - disse o duque de Wellington - e  claro, lady Lillian, que no pretendemos estragar seus planos!
Alecia juntou-se a eles e percebeu que lord Kiniston estava intrigado, de testa franzida, como se no o agradasse a ideia de surpresas em sua casa.
O jardim de inverno ficava bem longe, do outro lado da casa, e ela foi caminhando entre Willy e lord Kiniston, enquanto o duque de Wellington e lady Lillian iam
 frente do grupo.
Quando chegaram ao jardim de inverno, por um instante Alecia no percebeu que estava muito diferente da vspera.
As velas que o iluminavam estavam cuidadosamente colocadas por trs das flores e l no fundo havia trs objetos cobertos por toalhas.
Uma dourada, outra prateada e a terceira era menor e verde. Alecia deduziu que esse devia ser o presente de lady Lillian.
Ento, lembrou-se do que ouvira um dos homens dizer ao outro ao sarem do jardim de inverno, na vspera:
- S o que falta agora  l cosmtique. Subitamente, como se o destino lhe soprasse, lembrou-se de que a palavra cosmtique significava tambm p e que em gria
designava plvora para armas.
No mesmo instante, como se um vu fosse afastado de seus olhos, entendeu o que estava para acontecer.
Era o duque de St. Briere, mesmo, que tinha acabado de ver e o que os outros dois homens carregavam era plvora com que pretendiam fazer explodir o jardim de inverno
e com ele o duque de Wellington, lord Kiniston e
todos os outros.
Nesse momento o duque e lady Lillian estavam se encaminhando para os trs objetos elegantemente cercados
de flores. Foi quando Alecia deu um grito que cortou o ar e
ecoou nas paredes de vidro.
-  uma armadilha... uma conspirao! - gritou ela.
- Vamos todos voar pelos ares! Corram daqui, depressa!
Todos ficaram parados, mas, enquanto o duque de Wellington e lady Lillian olhavam atnitos, lord Kiniston
agiu.
Correu para um lado e arrombou uma das portas que
davam para o jardim.
Vendo isso, o duque, que estava acostumado a agir em emergncias, puxou lady Lillian para fora e Alecia sentiu a mo de lord Kiniston pux-la pelo pulso.
Imediatamente alguns convidados saram apressados
tambm.
- Este lugar vai explodir! - gritava lord Kiniston.
- Depressa! Depressa! No h tempo para pensar, saiam
como puderem.
Willy correu para impedir que os retardatrios entrassem no jardim de inverno.
Os trs foram rpidos na reao ao ouvirem o grito de Alecia, e por isso o jardim de inverno foi esvaziado em questo de segundos.
O duque de Wellington, l fora, olhava para o castelo,
intrigado.
Alecia comeou a temer ter-se enganado, e pensou como se sentiria ridcula se nada acontecesse e os homens que vira fossem mesmo empregados trabalhando.
Ento houve um pequeno estouro e imediatamente lord Kiniston jogou-a no cho e atirou-se sobre ela.
A ao foi to rpida e inesperada que Alecia quase perdeu o flego.
Sentia o peso dele sobre seu corpo, quando se ouviu um terrvel estrondo seguido de duas outras exploses menores e um estilhaar de vidros que pareceu abalar o
mundo todo e ficou ecoando em seus ouvidos por muito tempo ainda.
Ergueu o olhar assustado e deparou com o rosto de lord Kiniston bem perto do seu. Sentiu-se pequena e indefesa sob aquele corpo musculoso e forte.
- Obrigado, Charis! Voc salvou todos ns! - disse ele, com voz suave e quente, depois beijou os lbios dela.
Alecia mal pde acreditar, mas, ao sentir aquele beijo, entendeu que a nica coisa que lhe importava era t-lo salvo.
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CAPTULO 7
Lord Kiniston afastou os lbios dos de Alecia e, tomando cuidado para no machuc-la, ergueu-se.
S ento Alecia se deu conta do rebulio  sua volta.
Mulheres gritavam, assustadas, em meio ao estalido das chamas que agora consumiam rapidamente o jardim de inverno.
Fagulhas pulavam longe, fazendo correr os que estavam mais prximos.
O duque de Wellington, que tambm se atirara no cho junto com Lillian, erguera-se e, tal como lord Kiniston, olhava ao redor para ver se algum se machucara.
Uma fagulha cara no vestido de musselina de Elizabeth Caton, fazendo-o incendiar, mas o coronel FeltonHervey felizmente conseguira apagar o fogo.
Ele prprio fora atingido na testa por um pedao de madeira em chamas, que deixara uma marca vermelha.
Outro pedao de madeira em chamas cara nos cabelos de uma das convidadas, que gritava, desesperada, at que dois cavalheiros a salvaram.
A confuso era geral e no momento era impossvel pensar. Ento, assumindo o comando, o duque de Wellington falou:
- Vamos todos para o salo onde jantamos.
Enquanto atravessavam o jardim, em direo ao outro extremo do castelo, Alecia no se virou para ver o jardim de inverno pegando fogo.
No suportava sequer pensar no que poderia ter acontecido se ela no tivesse adivinhado a tempo o significado da palavra francesa e entendido, por fim, o que vira.
A sra. Belton, que caminhava a seu lado, tagarelava
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como sempre, dizendo ser incrvel que tal coisa tivesse acontecido.
Repetia seguidas vezes o que todos j sabiam, que tinha sido um atentado contra o duque de Wellington, lord Kiniston e todos os outros ingleses que ocupavam o castelo.
Quando chegaram ao salo, viram que Willy j havia reunido o resto do grupo e estava servindo-lhes champanhe.
Alecia sentia-se fraca e assustada com o que acontecera, e foi com alvio que se deixou cair numa cadeira, tendo escolhido, apesar de toda agitao, uma bem longe
da de lady Lillian.
Lady Lillian fazia cena, exagerando o susto para atrair a ateno masculina.
O duque olhou em volta, para ver se todos se encontravam ali e se a porta do hall estava fechada, antes de dizer:
- Ns gostaramos de saber de lady Charis como ela teve a esperteza de descobrir que era um atentado e pde, assim, nos salvar.
Alecia no contava com isso e sobressaltou-se ao ouvir seu nome. Seu primeiro impulso foi recusar-se a falar.
Ento, como se lord Kiniston entendesse o que Alecia estava sentindo, foi at a cadeira em que ela estava e com delicadeza ajudou-a a levantar-se.
Depois, deu-lhe o brao e cobriu-lhe a mo com a sua.
Quando ergueu os olhos para fit-lo com olhar indagador, Alecia descobriu nos olhos dele uma expresso diferente. Ele nunca a olhara daquele modo.
Ela tremeu, sentindo um calafrio, ao se lembrar do beijo de h pouco.
- No tenha medo - disse ele, com calma. - Apenas conte-nos como soube o que ia acontecer.
A voz dele, embora gentil, era autoritria e Alecia entendeu que devia fazer o que lhe dizia.
Era difcil encontrar palavras e ela balbuciou meio desconexamente:
- Talvez... talvez, fosse melhor eu no dizer nada...
Olhou de relance para lady Lillian, que, como se de repente tivesse entendido o papel que desempenhara, tratou de falar, depressa:
- Acho que lady Charis tem razo. Quanto menos se falar no assunto, melhor. Afinal, ningum ficou ferido.
- Se no fosse pelo aviso a tempo de lady Charis retrucou o duque de Wellington -, a histria agora seria muito diferente. Por isso insisto em saber como nos salvou.
Houve um murmrio de aprovao quando ele terminou de falar. Lord Kiniston apertou de leve a mo de Alecia e ela respirou fundo.
- Tudo comeou ontem... - disse ela, com voz quase de criana - quando fui ao jardim de inverno.
Prosseguiu, explicando como vira os dois homens entrando e saindo e que ouvira um deles falar "s falta agora l cosmtique", mas na hora no entendeu o significado
da palavra em francs.
Temendo que lord Kiniston a achasse tola por isso, ergueu o olhar, apreensiva.
Mas ele sorriu, encorajando-a a continuar.
- Quando o almoo terminou eu vim para esta sala, depois para o jardim... pretendendo ler um pouco...
Num fio de voz ela explicou que ouvira pela janela o duque de St. Briere pedir que lady Lillian levasse o duque de Wellington e lord Kiniston ao jardim de inverno,
exatamente s quinze para as dez, dizendo ter presentes para eles e tambm para ela.
- Nunca ouvi besteira maior! - protestou lady Lillian. - Lady Charis est dizendo uma poro de mentiras!
- Tenha a gentileza de deixar lady Charis prosseguir sem interrupes! - disse o duque de Wellington, rspido.
com isso, lady Lillian no disse mais nada.
Tmida e sem jeito, Alecia contou que depois do jantar subira at o quarto e ficara na janela olhando o jardim.
Ento, viu dois homens, que lhe pareceram os mesmos da vspera, encaminharem-se para o jardim de inverno
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carregando algo e, em seguida, surgiu um outro, que achou parecido com o duque de St. Briere.
- Meu Deus! - exclamou Willy, baixo. - O maldito s fingiu que ia a Paris para ter um libi e no ser responsabilizado pela nossa morte!
O duque de Wellington lanou-lhe um olhar penetrante, mas no o repreendeu. Alecia terminou:
- Quando vi os trs homens saindo do jardim de inverno, tive certeza de que o da capa era o duque de St. Briere e, mesmo assim, fui boba de no desconfiar o que
estavam fazendo... Foi s quando entramos no jardim de inverno, h pouco, que eu lembrei o significado de cosmtique...
Fez-se silncio e novamente ela olhou para lord Kiniston.
- E foi nesse momento - disse ele, com calma que voc salvou nossas vidas e principalmente a vida do duque de Wellington!
com a mesma delicadeza, ele a conduziu de volta para a cadeira e colocou-lhe na mo uma taa de champanhe.
- Agora, ouam-me - falou o duque de Wellington. - Tenho certeza de que gostariam de que eu fosse o porta-voz do grupo e, antes de mais nada, agradecesse lady Charis
de todo o corao por sua inteligncia em perceber a verdade e dar o alarme para que fssemos salvos. Qualquer outra mulher teria sido tmida demais para sugerir
que algo to imprevisvel estava por acontecer. E como vocs que so soldados sabem, uma frao de segundo pode significar a diferena entre a vida e a morte.
Houve um murmrio no salo e o duque disse simplesmente:
- Eu agradeo a voc, lady Charis, em nome de todos ns. No h palavras que possam expressar com bastante eloquncia nossa gratido.
Alecia enrubesceu e baixou o olhar, enquanto o duque prosseguia:
- Agora tenho algo muito importante a dizer: quero que todos aqui presentes me dem a palavra de honra de que no comentaro fora desta sala o que aconteceu aqui
esta noite. Tenho certeza de que lord Kiniston ser capaz de encontrar uma explicao plausvel de como o aquecedor da estufa explodiu, incendiando o jardim de inverno.
Quanto a ns, no sabemos nada nem estamos interessados.
Todos pareceram surpresos e o duque falou:
- A maioria de vocs sabe das dificuldades, dos problemas e das discusses que tm havido a respeito da reduo do Exrcito de Ocupao. Se o que houve esta noite
for divulgado, tenho certeza de que o governo britnico, que j est apreensivo com minha ida a Paris e com a possibilidade de atentados contra mim, mudar de opinio,
e os trinta mil homens que voltariam para casa sero obrigados a permanecer na Frana.
Fez mais uma pausa antes de prosseguir, em seu modo claro e seco:
- Isso causaria consternao entre os franceses, que no momento sentem-se aliviados por eu estar diminuindo o nmero de homens que devem ser alimentados  custa
deles. Tenho certeza de que vocs entendero e portanto me daro sua palavra de honra de que em circunstncia alguma comentaro essa questo e de maneira nenhuma
faro referncias a esse episdio nas cartas que escreverem para a Inglaterra.
- Eu entendo, caro duque - disse Marianne Patterson -, e certamente prometo-lhe que eu e minhas irms no tocaremos no assunto com ningum. Damos graas a Deus por
estar vivo e no ter se ferido!
O duque olhou-a satisfeito e sorriu-lhe com intimidade.
- Falando em meu nome e de meus convidados disse lord Kiniston -, estou certo de que Sua Graa pode confiar em ns e aqueles que usam a farda do Exrcito britnico
tomaro o que disse como uma ordem que ser obedecida.
Depois de outros oficiais presentes terem deixado claro que concordavam com isso, Willy, no querendo que
a noite terminasse com uma nota triste, disse com seu habitual bom humor:
- Acho que neste momento devemos erguer um brinde  integridade britnica e  queda de todos os viles que se imaginam modernos Guy Fawkes!
O modo de ele falar provocou um riso geral e quebrou a solenidade.
Ento, enquanto Willy e o coronel Felton-Hervey circulavam pelo salo, enchendo de champanhe as taas, as vozes comearam a se elevar e em breve estavam todos conversando
novamente.
Alecia, sentindo que no podia mais suportar, disse baixinho a lord Kiniston, que estava a seu lado:
- Ser que eu poderia ir deitar-me?
- Claro que sim - respondeu ele. - Voc j teve emoes demais num dia s, mas tente acreditar que isso no acontecer novamente.
Deu a mo para que ela se erguesse, depois lhe disse:
- Saia sorrateiramente, seno as pessoas podero comear a fazer perguntas indesejveis.
- Ah, por favor... no deixe que me vejam sair. Enquanto estavam todos distrados, em conversa, lord
Kiniston conseguiu levar Alecia at a porta sem serem notados.
Atravessaram o hall e, quando se aproximaram da escada, ela percebeu que no havia lacaios de prontido.
Ia comentar isso com lord Kiniston, quando percebeu que ele tambm havia notado.
- Eles tambm faziam parte do compl! - exclamou o lord. - Fugiram todos para no serem interrogados quando os corpos fossem encontrados!
- Oh! Meu Deus!
- Eles voltaro pela manh e, tal como sugeriu o duque de Wellington, ns nos portaremos como se nada tivesse acontecido.
- E o fogo no vai se espalhar pelo castelo? - perguntou Alecia, nervosa.
- Willy providenciou para que isso no acontecesse. Os soldados ingleses apagaram o incndio.
113
Sorriu quando chegaram ao p da escada, e falou quando ela lhe estendeu a mo para dar boa-noite:
- Nem preciso lhe dizer o quanto voc foi
maravilhosa! Ela enrubesceu e, ento, ele tomou-lhe a mo e levou-a aos lbios.
Alecia sentiu o doce contato que lhe provocou um arrepio no corpo todo.
- Maravilhosa e adorvel!
Por instantes ficaram apenas se olhando sem que Alecia conseguisse desviar o olhar.
Ento, sabendo que devia afastar-se dele, retirou a mo e subiu a escada correndo.
Quando chegou ao topo, teve vontade de olhar para trs para saber se ele ainda estava l, mas achou que certamente j voltara para o salo e isso a faria sentir-se
decepcionada.
Por isso seguiu em frente, encaminhando-se para o
quarto.
No sabia que lord Kiniston ficara parado l, olhando-a, e continuou assim algum tempo ainda depois de ela ter desaparecido de vista.
Quando Alecia acordou pela manh, a primeira coisa em que pensou foi em lord Kiniston. Tinha se deitado pensando nele, sentindo os lbios dele nos seus.
Parecia-lhe incrvel que a tivesse beijado mesmo.
Achou que o beijo no devia ter significado nada para ele, tinha sido apenas uma expresso de alvio por estarem vivos e inteiros.
Lembrou-se de que o pai lhe contara certa vez que em alguns pases, depois de um terremoto, os sobreviventes beijavam-se e at faziam amor, para expressar a alegria
de estarem vivos.
Tinha certeza de que era apenas isso o que significava o beijo de lord Kiniston, nada mais.
Mas sabia tambm que, quando voltasse para a Inglaterra, arrasada, depois que ele descobrisse a verdade, isso era uma coisa que sempre recordaria.
Sarah levou-lhe o caf na cama e disse que eram ordens de lord Kiniston para que descansasse o mximo
possvel.
Nenhuma das outras ladies acordou ainda - acrescentou ela.
E ento comeou a contar a Alecia, em tom de horror, como o mordomo descobrira ao chegar, pela manh, que o jardim de inverno tinha pegado fogo durante a noite.
- Foi uma sorte, my lady, no termos morrido queimados em nossas camas! L embaixo est todo mundo dizendo a mesma coisa!
- Acho que deixaram muito quente os aquecedores que mantm a estufa do jardim - comentou Alecia casualmente.
- No se pode confiar nesses franceses para nada! Eles fazem tudo errado!
Alecia no pde deixar de pensar que essa era uma atitude tipicamente britnica em relao aos estrangeiros.
No tinha a menor vontade de ficar na cama e lamentava no poder ir cavalgar com lord Kiniston antes do caf. Por isso levantou-se e arrumou-se com todo esmero.
Quando Sarah estava penteando-lhe os cabelos, bateram na porta e quando ela abriu deparou com um lacaio, que disse em francs:
- Monsieur my lord deseja ver a lady assim que ela estiver pronta.
Alecia sentiu o corao quase parar, e olhando-se no espelho percebeu que seus olhos estavam brilhando. Admitiu que queria muito ver lord Kiniston.
Talvez porque quisesse ouvir novamente seus elogios e, quem sabe, embora soubesse que no aconteceria de novo, ele a beijasse.
- Afinal eu sou noiva dele... - disse para si - e nesse caso  de esperar que me beije...
Mal acabou de pensar isso, concluiu que no seria correto, j que no era Charis. No podia permitir que uma relao formal se transformasse em algo diferente.
Por ele t-la beijado naquele momento em que a protegia da exploso com seu prprio corpo, Alecia sentia
que tudo se havia alterado entre eles e, por mais errado que fosse, era algo que no poderia ser desfeito.
- Eu quero v-lo... e ele est a minha espera! - disse para si, toda contente.
Erguendo-se num mpeto do banquinho da penteadeira, ela correu pelo quarto enquanto Sarah acabava de fechar a porta.
- Eu no terminei seu penteado, my lady! - exclamou a criada.
- Est timo! E lord Kiniston est a minha espera. Sem esperar mais nada, correu pelo corredor escada abaixo.
Os lacaios haviam voltado e estavam em seus postos no hall, e Alecia tinha quase certeza de que o mordomo que participara do compl estava ali por perto.
Porm, no era isso que a preocupava enquanto corria para onde estava lord Kiniston.
Ele estava no gabinete, sentado  escrivaninha, e ergueu-se ao v-la entrar.
Ao aproximar-se, Alecia achou-o diferente.
Havia um brilho de admirao nos olhos dele ao fit-la e Alecia teve a impresso at de que era algo mais do que admirao.
Cumprimentou-a com uma mesura.
- Voc est bem? - perguntou ele.
- Muito bem, obrigada. E no houve mais problemas?
- Nenhum. Fui informado pelo oficial em servio, ontem, que o fogo foi extinguido com eficincia e rapidez e s o jardim de inverno ficou destrudo.
Alecia deu um suspiro de alvio, depois disse:
- Agora poderemos esquecer o incidente e... os outros no me falaro mais sobre o assunto, no ?
- No, se obedecerem ao duque. Mas eu tenho uma pergunta para lhe fazer, Charis, ou melhor, eu agradeceria se pudesse me explicar algo que no consigo entender.
- O que ?
Pensou que houvesse esquecido de relatar algo do que ouvira, por estar muito sem jeito.
Lord Kiniston, porm, ergueu-se da escrivaninha, parou a seu lado e entregou-lhe uma carta.
- Quer fazer o favor de ler isto?
Alecia pegou a carta e viu que era escrita em ingls, com letra no muito bem-feita, mas era clara e fcil de ler.
Comeava assim:
"My lord,
Da ltima vez em que nos vimos, o senhor comentou comigo que estava pensando em transferir seus cavalos de Newmarket para Epson, j que a seria mais conveniente
para trein-los quando o senhor est em Londres e mais perto de Kiniston Hall em Buckinghamshire.
Recentemente recebi a visita do visconde Turnbury, que est muito interessado nos cavalos do senhor. Quando esteve aqui, a esposa dele perguntou-me se seria possvel
ver os cavalos no pasto.
Espero no ter feito nada de errado por ter levado a viscondessa para conhecer o haras. Ela fcou muito bem impressionada com as instalaes e a beleza do jardim.
O visconde, ento, perguntou-me se havia alguma possibilidade de o senhor vender-lhe o haras, posto que ouvira comentar em Londres ser essa sua inteno.
Respondi ao visconde que escreveria ao senhor explicando-lhe a situao e ele agradeceu-me profusamente dizendo que ambos estavam a caminho de Suffolk e pedindo-me
para inform-lo o mais rpido possvel se de fato o senhor pretendia vender-lhe o haras todo, incluindo os cavalos e tudo o que tem dentro de casa.
Por isso escrevo-lhe imediatamente pedindo instrues.
Foi s quando o visconde j estava de sada que percebi j ter visto a esposa dele no Encontro da Primavera, no ano passado. Seria impossvel t-la esquecido, j
que  to linda e na ocasio chamava-se lady Charis Langley.
Espero que o senhor esteja bem de sade e que volte logo para a Inglaterra, agora que a guerra acabou. Seu humilde e obediente criado
Frederick Matthews"
Alecia terminou de ler a carta e largou-a sobre a
escrivaninha.
Sem olhar para lord Kiniston, cruzou as mos, apertando os dedos com fora, at os ns ficarem esbranquiados, e finalmente falou num fio de voz:
- Eu... eu sinto muito...
- Isso  tudo o que tem para dizer?
- Sinto muito... Eu... eu vou voltar para a Inglaterra imediatamente... Eu estava s esperando at que Charis
se casasse...
- Ento  verdade! A esposa do jovem Turnbury  mesmo Charis Langley! Em nome dos cus, ento quem  voc?
- Sou prima-irm dela... e somos muito parecidas...
- To parecidas que todos foram enganados por voc, embora eu tenha estranhado por ach-la to assustada quando chegou! Considerando o traquejo social de lady Charis,
achei-a um tanto insegura e tmida.
- Eu sempre vivi no campo, com meu pai...
- Nunca esteve em Londres?
- No.
- E nunca foi beijada antes de eu t-la beijado? Alecia enrubesceu e, sentindo que no podia suportar
essa pergunta, afastou-se em direo  janela, onde ficou virada para fora olhando sem enxergar.
Sabia que o mundo de sonho em que estava vivendo chegara ao fim e que agora teria de voltar para casa e nunca mais rever lord Kiniston.
Sentiu, ento, num repente, o quanto o amava.
Parecia-lhe absurdo, ridculo, impossvel sentir isso por um homem de quem tivera tanto medo.
Contudo, sentia uma dor quase fsica e uma agonia indescritvel s de pensar que teria de se separar dele, pois sem dvida devia estar muito bravo e a qualquer momento
iria denunci-la como impostora.
Ele se aproximou sem que ela percebesse e, quando falou s suas costas, Alecia sobressaltou-se.
- Qual  seu nome verdadeiro?
Foi com dificuldade que ela conseguiu dizer:
- Alecia... Stambrook.
- E agora, depois de envolver ns dois nesta situao extremamente complicada, ser que pode me dizer como sairemos dela?
- Eu vou embora imediatamente. Acho que  o que devo fazer...
- Vai voltar para a Inglaterra?
- Vou. Para a casa de papai. Ns moramos em Little Langley, uma aldeia vizinha ao antigo lar de Charis...
- Quando eu mandei chamar Charis, quem lhe pediu que viesse no lugar dela para que ela se casasse?
- Bem, Charis estava muito apaixonada pelo visconde e achou que voc a proibiria de casar-se porque a me dele morreu h pouco tempo... - Alecia respirou fundo antes
de continuar. - Eu lhe peo encarecidamente que no fique zangado com ela... Eles se amam tanto, um amor to bonito e completo, como o de papai por mame! Ela no
poderia separar-se dele para fazer o que voc queria.
- Charis poderia ter sido honesta comigo e me contado a verdade.
- Pensou nisso, mas, como achvamos que voc era muito velho e no entenderia, ela imaginou que iria obrig-la a esperar o tempo convencional, talvez um ano, antes
de casar-se.
- Sem dvida  uma atitude pouco piedosa por parte da noiva - disse lord Kiniston, seco.
- Era isso que eles temiam que voc achasse, mas agora j esto casados e voc no pode fazer nada.
- S me resta aceitar, mas o seu problema ainda continua. Quero que me diga por que concordou em representar uma farsa, coisa que parece avessa  sua natureza.
- Acho que mame tambm teria ficado chocada com isso... S que ela sabia que o amor  mais importante do que tudo e Charis ama o visconde Turnbury.
Ela falou com voz comovida, pois tambm estava amando, s que seu caso no tinha esperana. A nica coisa que lhe restava fazer era voltar depressa para casa.
- E, como voc gosta muito da sua prima, concordou prontamente em fazer o papel dela e me enganar. O tom de censura em sua voz cortou Alecia como uma lmina.
- No foi s por isso... Eu tambm quis ajudar
papai...
- Seu pai? De que maneira? - perguntou Kiniston,
severo.
Alecia respirou fundo.
Gostaria de no ter de explicar essas coisas, mas sabia que ele tinha direito a uma explicao e que era impossvel no responder s suas perguntas.
- O pai de Charis era irmo de mame, e quando ele morreu, dois meses depois da morte de minha me, ns deixamos de receber os mantimentos da fazenda da qual dependamos.
Papai  escritor, mas os livros no rendem muito dinheiro e eu... estava realmente desesperada porque ningum mais queria nos vender fiado... Foi ento que Charis
apareceu.
- Ento sua prima pagou voc para fazer o que ela
queria?
Alecia fechou os olhos.
Dito assim parecia-lhe srdido e humilhante, mas agora precisava ser honesta.
- Ela me deu quinhentas libras... o que dar para alimentar papai por um bom tempo.
- Suponho que ela tambm lhe tenha dado as roupas que voc est usando.
- Sim,  que ela est fazendo um novo enxoval e as minhas roupas estavam em farrapos. Ns sempre tivemos mais ou menos o mesmo corpo.
-  incrvel vocs terem planejado esta farsa! Baixou a cabea, sentindo-se humilhada.
- Por favor, deixe-me voltar para casa, logo! Sei que voc no entende e eu... eu estou muito envergonhada por t-lo enganado. Apesar do medo que senti, jamais vou
esquecer minha estada aqui, nem o fato de ter conhecido voc.
- Por que nunca vai me esquecer? - Novamente fez-se silncio, depois ele disse: - Olhe para mim, Alecia! Quero que me diga a verdade. Por que no vai me esquecer?
Como era impossvel no obedec-lo, Alecia virou-se devagar e ergueu o rosto para ele.
Ele viu o medo em seus olhos e uma outra expresso inconfundvel.
- Diga-me - falou ele com suavidade -, por que voc no vai me esquecer?
Por um momento ela apenas o olhou e ele notou que seu corpo estava trmulo.
- Voc me disse que nunca foi beijada - disse ele.
- Eu fui o primeiro e foi essa exatamente a impresso que tive naquele momento da exploso. Mas quero me certificar de que no estou enganado e que seus lbios so
to doces e inocentes quanto me pareceram.
Enlaou-a pela cintura e puxou-a para si.
Antes que Alecia pudesse perceber o que estava acontecendo, os lbios dele se apossaram dos seus.
Como sabia que ela era inexperiente e inocente, no incio foi um beijo suave e terno. Ento, quando percebeu que ela correspondia, o beijo foi ficando mais intenso,
mais ardente, enquanto Kiniston estreitava o abrao.
Ento o amor que ela sentia por ele ergueu-se como uma onda e espalhou-se por seu corpo todo.
Era uma sensao que jamais experimentara e nem sequer imaginara, mas era to arrebatadora e extasiante que sabia ser o que sempre ansiara.
Era o amor, o amor que sua me e seu pai tinham conhecido, e que Charis encontrara com Harry, e que ela sempre pedira em oraes para vir ao seu encontro.
"Eu o amo!", teve vontade de gritar, mas as palavras no eram necessrias.
Seu corpo tremia contra o de Kiniston e ela lhe entregou o corao e a alma naquele beijo.
Alecia estava se sentindo no cu, flutuando, longe da terra, quando ele afastou o rosto e perguntou:
- Era isso o que voc esperava de um beijo?
- Eu... eu amo voc! - murmurou ela. - Eu amo voc! E, antes de me mandar embora, por favor beije-me mais uma vez!
- Acredita mesmo que eu poderia deixar voc ir embora?
E beijou-a de novo com avidez e paixo, como se temesse perd-la.
Alecia sentiu uma chama acender-se dentro dela e s queria que ele a ficasse beijando para sempre e que nunca mais tivesse de enfrentar o mundo l fora, ou separar-se
dele.
Quando, enfim, Kiniston afastou o rosto para contempl-la, ela escondeu o rosto no ombro dele.
- Como eu pude ter sido to cego? Cego a ponto de me deixar enganar e pensar que voc pudesse ser a jovem de quem se fala nos clubes de St. James e que figura no
livro de apostas em White?
- Perdoe-me...
- Como posso no perdo-la? Afinal, se voc no estivesse aqui ontem  noite, agora eu no estaria vivo para v-la e beij-la!
- Ah... e se ele tentar de novo? - lembrou ela.
- Duvido que tente.
- Por que no?
- Porque, a no ser que eu me engane, ele vai saber que falhou e ter medo de ser preso. Na verdade, ir simplesmente desaparecer e duvido que ouamos falar no duque
de St. Briere de novo enquanto estivermos aqui.
Alecia suspirou.
- Voc tem certeza, mesmo, de que no corre perigo?
- Parece que voc se preocupa comigo de verdade...
-  claro que me preocupo!
- Nesse caso, acho melhor continuar tomando conta de mim para ter certeza de que no vou mais ter problemas desse tipo.
Alecia arregalou os olhos e ele prosseguiu:
- O nico modo de sairmos honradamente dessa situao que voc e Charis criaram  voc casando comigo.
- Casar com voc?
Os olhos dela brilharam com toda intensidade.
- Mas... certamente devemos esperar os seis meses que
voc disse serem essenciais para nos conhecermos melhor e descobrirmos se somos ou no compatveis! Lord Kiniston riu um riso de felicidade.
- No tenho a menor inteno de esperar seis meses.
O que vamos fazer, meu amor,  bem mais simples. Vamos voltar para a Inglaterra imediatamente pretextando negcios de famlia, e assim que chegarmos a Kiniston Hall
nos casaremos discretamente em minha capela.
Alecia deu um gritinho de euforia enquanto ele prosseguia:
- Depois, quando tivermos tempo, conversaremos com sua prima Charis e Harry Turnbury e decidiremos juntos quando iremos anunciar o casamento deles e o nosso. O resto
fica por conta dos mexeriqueiros...
- Parece maravilhoso demais para ser verdade! Mas voc tem mesmo certeza...
- Certeza absoluta! - Kiniston sorriu. - Quero voc como jamais quis mulher alguma em minha vida e no pretendo perd-la.
- No pode ser verdade! Cada momento que eu passei com voc sempre estava pensando que seria o ltimo e seria tudo o que eu teria para lembrar quando voltasse para
casa... arrasada...
No pde evitar o tremor na voz e seus olhos se inundaram de lgrimas.
- Voc no vai me deixar nem por um momento. Dizendo isso ele comeou a beijar-lhe o rosto molhado
de lgrimas e depois beijou-a novamente nos lbios.
Depois desse momento divino de felicidade, enquanto ela ainda sorria extasiada, ele falou:
- Agora precisamos tratar de nos apressar, minha adorada. vou procurar o duque de Wellington para dizer que preciso ir  Inglaterra o quanto antes. Voc, enquanto
isso, prepare suas malas e esteja pronta no mximo dentro de uma hora.
- Uma hora? Mas como poderemos fazer isso?
-  s questo de organizao, ter muitos criados para ajud-la.
 Ela estava radiante de felicidade e quando ele a olhou
achou que nenhuma outra mulher poderia ser to linda.
- Acho que quando chegarmos  Inglaterra liberarei as vinte mil libras que sua prima quer e venderei meu haras com a casa, mas no todos os cavalos. Guardarei o
melhor para voc.
- Eu quero poder sempre cavalgar com voc, quero estar com voc, fazer tudo com voc... - disse Alecia apaixonadamente.
- Mas  claro! E eu quero que tome conta de mim, meu amor, e me salve de bombas e de mulheres possessivas!
Ao dizer isso, pensou na sorte que tivera de ter escapado de lady Lillian e de Elizabeth.
Sabia que por amar Alecia estaria a salvo de muitas coisas que no soubera evitar no passado.
Amava-a verdadeiramente, de todo o corao, e s queria ser seu marido e cuidar dela.
Lady Kiniston esperava no enorme quarto em Kiniston Hall.
Parecia pequena e etrea na cama com lenis de cetim, dossel entalhado com cupidos e grinaldas de rosas.
Tinham se casado na vspera,  tarde, na capela enfeitada de flores, exatamente trs horas depois de ter chegado  casa que seria seu futuro lar.
Alecia achara a viagem longa, cansativa e assustadora ao ir para Cambrai. Mas viajar com lord Kiniston foi muito diferente. Os cavalos dele quase pareciam voar como
se fossem Pgasus.
A cada momento, amava-o mais e achava-o o homem mais maravilhoso que j conhecera.
- No est cansada, meu amor? - perguntou ele ao chegarem a Dover em seu iate particular, que estava  espera deles em Calais.
- Dormi como um anjo - retrucou ela -, embalada pelas ondas, pensando que estava em seus braos.
- Esta noite voc no precisar pensar que est em meus braos...
Alecia arregalou os olhos.
- Quer dizer que...
- J enviei ordens e ns nos casaremos assim que chegarmos em casa. - Fez uma pausa e acrescentou: - Sei que  anticonvencional voc viajar comigo sem dama de companhia.
Mas, como s o duque sabe que viajamos, no haver comentrios. E em casa voc ter a companhia do marido. Quer melhor do que isso?
- Ah, Drogo... No posso acreditar que seja verdade! Que voc me ame realmente...
- Hoje  noite eu a convencerei disso! - Ela enrubesceu e ele acrescentou, sorrindo: - Eu adoro voc, adoro sua inocncia e o fato de nunca ningum ter-lhe ensinado
sobre o amor.
- Eu no iria querer ningum que no fosse voc. Ele a beijou na boca mais uma vez.
Em Dover havia outra carruagem de viagem  espera deles e a cada vinte quilmetros, durante o caminho todo at chegarem a Kiniston Hall, havia cavalos de propriedade
de lord Kiniston para serem trocados e atrelados  carruagem.
Pararam para almoar numa velha taberna de estrada, onde no havia ningum alm deles e a comida e o vinho deliciosos.
Alecia entretanto s pensava na felicidade de estar ao lado do homem que amava.
- Jamais poderia sonhar que isso fosse acontecer comigo... - disse ela.
- Deve ter sido seu anjo da guarda que olhou por voc. - Lord Kiniston sorriu.
- E por voc tambm...
- Estou certo de que foram suas preces.
Ao dizer isso, lord Kiniston pensou que jamais conhecera outra mulher que rezasse a no ser sua me.
Quando chegaram a Kiniston Hall ele insistiu para que Alecia fosse imediatamente para o quarto descansar.
- Foi uma longa viagem, afinal de contas, meu amor, e eu quero que esteja linda para mim esta noite, porque ser um momento importante que lembraremos para o resto
de nossas vidas.
- Jamais esquecerei esse dia!
Alecia ajoelhou-se ao lado de lord Kiniston na bonita capela antiga, diante do pastor que conhecia Kiniston desde menino.
Lord Kiniston sentia que aquele era o momento mais emocionante de sua vida.
O reverendo abenoou-os com tanto amor e sinceridade que provocou lgrimas em Alecia, fazendo-a sentir-se abenoada por Deus.
Em seguida foi servido champanhe a todos os criados da casa, que eram os nicos a saber do casamento e prometeram manter segredo.
Depois Kiniston mandou Alecia subir para o quarto.
Sarah ajudou-a a despir-se, enquanto dizia:
- A senhora est to linda, my lady! Parece um anjo vindo do cu.
Alecia sorriu.
Quando entrou na cama e se viu sozinha, rezou para que pudesse fazer seu marido feliz e jamais decepcion-lo.
Ele entrou no quarto e, ao v-la na enorme cama, achou-a linda e desejvel, ao mesmo tempo que sentiu algo de espiritual nesse desejo.
Sentou-se na beirada da cama, fitando-a, e disse:
- Se estiver muito cansada depois dessa nossa viagem, amor, ento eu a deixarei descansar esta noite, embora seja muito difcil para mim afastar-me de voc...
- Para mim tambm ser difcil... Quero ficar perto de voc, ter certeza de que me ama... E eu ficarei com medo, sozinha nesta cama enorme!
Lord Kiniston sorriu de felicidade. Tirou o robe, deitou-se e abraou-a sob as cobertas, dizendo:
- Nunca mais vou deixar que tenha medo...
- E se ainda houver franceses querendo mat-lo?
- Voc estando comigo, eles no conseguiro. E agora vamos esquecer os franceses e pensar em ns.
Alecia aconchegou-se nos braos dele e murmurou:
- E se eu decepcionar voc? Ser que no vai preferir ter casado com lady Lillian?
Lord Kiniston ergueu o rosto dela.
- Quem  essa lady Lillian? Existe alguma outra mulher no mundo? Eu s consigo pensar em uma, que  to perfeita, to adorvel, to ideal, que eu a amo como nunca
amei ningum e jamais amarei.
Alecia suspirou.
- Que coisas lindas voc me diz... Eu rezei muito para que consiga faz-lo feliz.
- Eu j sou feliz. Antes eu no sabia o que era felicidade. O que voc fez comigo, Alecia, que o mundo todo mudou depois que a conheci?
Ele afastou os cabelos da testa dela, dizendo:
- No  s porque voc  a mulher mais linda da face da Terra, nem porque eu adoro seu carter, sua personalidade, sua inocncia e sua pureza...  porque voc 
exatamente o que sempre pensei que jamais encontraria em uma mulher. - Ah, meu amor, voc est me deixando assustada. E se voc achar que eu no sou to perfeita
quanto imagina?
- Eu sei que voc ! E, enquanto voc rezava na capela, pedindo para me fazer feliz, eu agradecia a Deus por ter me dado a bno de encontrar a minha metade, a
alma gmea, a mulher que foi feita para mim desde o incio dos tempos. Voc  tudo o que eu no sou, portanto juntos faremos uma pessoa completa e nosso amor nos
proteger de todos os males. Nada nos atingir.
Ele dizia o que Alecia sempre quisera ouvir do homem que a amasse.
Ficou to emocionada que passou os braos pelo pescoo dele, puxando-o para si.
- Beije-me, querido. Por favor, beije-me. Ensine-me a am-lo como voc quer ser amado.  to bom estarmos juntos...
- Estaremos juntos para sempre. Ningum jamais ir nos separar.
Ento, beijou-a com grande paixo e ao mesmo tempo muita ternura e reverncia.
Sabia que ela era jovem e inocente, e por isso precisaria trat-la com delicadeza.
Porm, enquanto a beijava percebeu que a mesma chama do desejo que o consumia estava tambm nela.
E a intensidade das chamas cresceu tornando-se uma luz divina que os conduziu ao paraso onde no havia nenhum mal.
S a perfeio e a pureza do verdadeiro amor que dissipa todos os medos.

QUEM  BARBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de 350 milhes de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita importncia aos aspectos
mais superficiais do sexo, o pblico se deixou conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais. E ficou fascinado pela maneira como constri
suas tramas, em cenrios que vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso
das reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e teatrloga. Mas Barbara
Cartland se interessa tanto pelos valores do passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por
sua luta em defesa de melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e  presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.

Fim
